domingo, 14 de dezembro de 2008

Por que continuar?

Uma das exigências relativas ao candidato à iniciação na Maçonaria é a higidez física que lhe permita desempenhar corretamente em loja. Pois bem, neste momento vejo-me fisicamente impossibilitado de desempenhar a função essencial e mais importante na maçonaria atualmente: o copo d'água...

Uma disfunção da válvula cárdia produziu o chamado megaesôfago, uma dilatação do esôfago provocada pela dificuldade da passagem do alimento para o estômago. A digestão começa a ser realizada pela saliva no esôfago e, conseqüentemente, o vômito é inevitável...

Essa já seria, por si, uma razão de suma importância para justificar minha saída da Ordem. Mas, outras considerações devem ser feitas.

A meu ver, uma Loja Maçônica tem diversas funções dentro da Ordem.

  1. Assegurar a perenidade da Maçonaria, através da preservação dos rituais e da pedagogia ministrada em loja, visando transmitir os conhecimentos maçônicos.
  2. Assegurar, através da iniciação dos líderes da sociedade, que os princípios maçônicos sejam aplicados ao governo da sociedade
  3. Criar uma rede de líderes que possam se mobilizar em torno de problemas sérios e influenciar a condução da política na sociedade.
  4. Agir em defesa dos injustiçados, dos oprimidos e dos pobres, visando assegurar os direitos humanos de segurança jurídica, segurança alimentar, segurança educacional

Ora...

Em cidades pequenas, onde todos os habitantes estão sujeitos ao mesmo ambiente socio-econômico-religioso, as Lojas têm uma atuação relativamente satisfatória e, na medida do possível, consegue realizar os quatro objetivos elencados acima.

Como todos os membros fazem parte da mesma comunidade, são igualmente afetados pelas mesmas condições e tendem a conseguir o grau de galvanização necessário para atacar os problemas e resolvê-los.

Mas, nas cidades médias e grandes o desempenho é sofrível e, quando muito as lojas se limitam a realizar o primeiro objetivo, também na medida do possível. As lojas tornaram-se heterogêneas demais, os candidatos são escolhidos independentemente do seu local de residência ou de trabalho estar dentro de um perímetro determinado, ao qual pertença a maioria dos membros da loja. O resultado é a paralisia e dificuldades para a realização dos outros três objetivos.

O aspecto liderança não é considerado essencial no candidato, levando à iniciação de pessoas absolutamente medíocres, cuja única qualidade é "serem boazinhas"... pessoas intelectualmente limitadas que não têm a mínima condição de produzir um trabalho inteligível, que não exercem qualquer liderança em seu meio, mas que são "empurradas" escada acima... 

No interior, a maçonaria elege prefeito, vereadores; dirige o Rotary; dirige asilos e hospitais, enfim... os maçons dirigem a cidade...

Nas grandes cidades, nem sequer conseguimos um empreguinho para um irmão ou sobrinho; não conseguimos vagas em hospitais para nossos familiares, não estamos presentes na direção de qualquer entidade importante, pública ou privada; não influenciamos a política, somos um zero à esquerda... porque nossos critérios de seleção visam um perfil muito modesto.

Muitas vezes ouvimos, com relação aos políticos, que cada nação tem os governantes que merece. Com a maçonaria acontece a mesma coisa. A mesma falta de grandeza e de eficiência administrativa da Ordem é refletida nas equipes dirigentes em nível estadual e nacional.

Em nível nacional, a Ordem não tem a mínima visibilidade. Em Brasília, não temos representantes acreditados junto ao governo federal, que poderiam participar, no mínimo, como lobistas junto ao governo federal. É lamentável a notícia de que o Duque de Kent, o Grão-Mestre da Maçonaria Inglesa (alma mater da maçonaria brasileira) ficou extremamente admirado por não haver um representante sequer da Maçonaria Brasileira na recepção a ele oferecida no Itamaraty. Isto é sintomático...

Outra coisa.

O Cadastro de irmãos existente nos GGOOEE é um tesouro de informações que bem administrado nos permitiria realizar um trabalho absolutamente maravilhoso. Mas, não existem cérebros capazes de utilizá-lo. Limitam-se a usar como mala-direta para a venda de livros e serviços...

Já tive a oportunidade de expor a um GME um projeto de utilização do cadastro que daria nova vida à Maçonaria, não só com os membros atuais, mas atrairia certamente um fluxo importante e necessário de novos interessados pela Ordem.

O Cadastro é o que se chama em Tecnologia da Informação, um banco de talentos. Nele sabemos a profissão de cada membro, seu endereço residencial e profissional. Estas são duas informações importantes.

Caso os Grandes Orientes Estaduais, ou mesmo o Grande Oriente do Brasil, tivessem oficiais competentes realmente dedicados à consecução dos objetivos da Ordem e à realização de campanhas de beneficência, estes oficiais poderiam:

  1. Definir quatro grandes campanhas por ano: equinócio de outono, solstício de inverno, equinócio da primavera e solstício de verão, onde realizariam campanhas, por exemplo, e material escolar, de agasalho, de natal (oferecer aos despossuídos a possibilidade de celebrar um natal com a barriga cheia, como qualquer outra pessoa...)

  2. Realizar mutirões de atendimento jurídico, saúde, dentário, etc.

  3. Mobilizar recursos humanos e materiais em casos de calamidade pública...

  4. Cooperar com a Defesa Civil...

  5. Influenciar em campanhas cívicas, por exemplo, laicidade, aborto, células tronco...

Vejamos um exemplo:

Tomemos um oriente como São Paulo, onde deve haver cerca de 15.000 membros ativos. Imaginemos que o Grande Oriente São Paulo decidisse realizar uma campanha de atendimento de segurança alimentar, ou seja, distribuição de alimentos a famílias carentes através de lojas em diferentes orientes municipais.

Se considerarmos que uma cesta básica mais simples pesa 15 quilos e se apenas 80% dos irmãos viessem a cumprir com suas obrigações maçônicas, seria possível coletar 180 toneladas de alimentos... 180 toneladas que poderiam ser distribuídas às comunidades carentes nos 500 municípios paulistas. 

Isso se consideramos que cada irmão fosse contribuir com apenas uma cesta. Se considerarmos que uma cesta custa apenas R$ 40,00, se algum irmão não puder contribuir, ele deve apresentar sua demissão imediatamente, porque certamente não tem condição de ser membro de uma loja maçônica. 

O mapeamento profissional do Cadastro permitiria acionar irmãos em emergências médicas, jurídicas, dentárias. Permitiria atender a apelos de irmãos em dificuldade. Viabilizar atendimentos em hospitais, conseguir transporte de pessoas e coisas, enfim, todo o universo onde irmãos atuem poderia ser operacionalizado em função da realização de um trabalho efetivo de ação social e por que não dizer, política.

Os irmãos poderiam ser instados a se manifestar maciçamente  junto aos seus representantes no congresso sobre assuntos de interesse social, oferecendo aos membros da ordem um sentido mínimo para sua atuação em prol da humanidade.

Mas, em uma demonstração da pequenez da mentalidade vigente, nossos dirigentes preocupam-se em celebrar convênios com padarias, hotéis, farmácias, agências de turismo, companhias aéreas, carrinhos de sorvete, vendedores de cachorro-quente, etc. como se fôssemos um sindicato de trabalhadores que precisam de paternalismo.

É verdade que existem irmãos que inadimplem cotizações de loja ridiculamente pequenas, o que também depõem contra a Ordem. Não pela inadimplência, mas pela incapacidade financeira. Também resultado da escolha defeituosa de candidatos.

Aspectos financeiros são outro caso.

Uma loja é uma unidade econômica que tem um fluxo de caixa e que visa um objetivo (espera-se).

Há objetivos e objetivos... A maioria limita-se a cumprir o primeiro objetivo da loja (perpetuar a Maçonaria) como um gerador que gera energia suficiente apenas para fazer funcionar um motor que produz rotação para fazer girar o gerador que gera energia para fazê-lo funcionar... e assim por diante. Um moto contínuo.

Outras transformaram a loja em capela maçônica, e a maçonaria em religião e dedicam-se a louvar ao deus de Abraão travestido em Grande Arquiteto do Universo. Apenas dão um novo nome à mesma crença.  Esquecem-se de que a maçonaria deve se manter equidistante de todas as religiões, justamente para assegurar um ambiente de harmonia e concórdia.

Outras lojas dedicam-se à acumulação de capital.

Poucas, em sua maioria no interior, conseguem realizar os quatro objetivos citados acima.

Um exemplo:

A loja mais rica do estado de São Paulo, e conseqüentemente, do Brasil (que não vou citar o nome, por razões óbvias...) é proprietária de prédios inteiros de escritório e garagens no centro de São Paulo e tem uma receita anual aproximada da ordem de (pasmem), R$1.200.000,00. Isso, UM MILHÃO E DUZENTOS MIL REAIS.

A loja deve ter 40 membros, dos quais 20 em idade tão avançada que não podem comparecer aos trabalhos; seu templo principal, de mais de 400 m² é maior e mais luxuoso que o templo central do GOSP. Suas instalações administrativas são mais amplas e mais bem equipadas que o GOSP. A biblioteca é maior que a do GOSP. A sala úmida da loja tem 500 m², pé direito de 12 metros, piso de porcelanato, equipada com cozinha completa digna de um restaurante.

E quanto a loja gasta em beneficência por ano?

R$ 5.000,00. Isso. CINCO MIL REAIS comprando alguns legumes e carne de segunda para doar à Federação Espírita que faz um sopão para os mendigos do centro da cidade.

CINCO MIL REAIS ANUAIS!!! De uma receita anual de um milhão e duzentos. Todo o dinheiro vai para acumulação e compra de novos imóveis e reforma dos imóveis existentes que por sua vez aumentam os rendimentos...

E, como ela, centenas de lojas estão mais preocupadas em construir templo próprio do que elaborar um programa de atendimento aos carentes de sua comunidade, influenciar politicamente o governo de sua comunidade, promover cursos para melhorar o nível dos seus membros, etc.

Estive fazendo umas contas. Classifico cada tostão gasto e tenho um relatório detalhado de todos os gastos por categoria. (Microsoft Money)

Descobri que gasto cerca de R$ 2.700,00 por ano, considerando a cotização, copo d'água, eventualidades, tronco, jantares, etc. (este ano provavelmente um pouco mais...) Vamos arredondar para R$ 3.000,00 por ano.

Nossa loja realizou um evento (feijoada beneficente) para arrecadar fundos para ajudar um grupo de equoterapia que dá atendimento a menores carentes. Em anos anteriores ajudamos à ABADOC, uma ONG de um irmão que ajuda doentes com câncer.

Foi um esforço enorme. No final conseguimos arrecadar R$ 3.000,00.

Pensei. A loja tem 30 membros ativos que devem ter gasto mais ou menos o mesmo que eu. Isso significa que o fluxo de caixa da loja será de cerca de R$ 90.000,00 a R$ 100.000,00 por ano.

A Hospitalaria realizou algumas ações no exercício. Algo em torno de R$ 2.000,00 que somados aos 3.000,00 da Equoterapia representam a produção útil da loja. Ou seja, uma empresa que produz míseros 5% de lucro... é uma empresa falida.

O valor corresponde a R$ 14,00 da mensalidade...  Se compararmos aos ingleses, por exemplo, onde a beneficiência maçônica é, obrigatoriamente, feita com recursos próprios DOS IRMÃOS, e monta a milhões de libras anuais, vemos que estamos muito, mas muito distantes do ideal.

Mas, o GOSP e o GOB estão satisfeitos com a arrecadação da capitação; o pecúlio está satisfeito, o Seu Higino (dono do imóvel) está satisfeito, o tesoureiro está satisfeito...

Eu não estou satisfeito. Não estou aprendendo nada. Não estou realizando coisa alguma. E isso incomoda.

Certa vez ouvi uma história com relação à Swissair. Um funcionário da companhia aérea contava: no ano 2500, quando os arqueólogos desenterrassem a sede da Swissair em Zurich, uma grande polêmica se instauraria no meio científico para responder à pergunta:

- Por que uma fábrica de papel precisava de tantos aviões?

O mesmo se aplica, mutatis mutandis, à Maçonaria.

- Por que uma seguradora precisava reunir seus segurados semanalmente?

Sim, porque no frigir dos ovos, o que resta é a perspectiva do pagamento do "vultuoso" pecúlio de R$ 35.000,00 à viúva (dá para pagar um enterro de primeira classe, mas não representa alívio financeiro ou garante a subsistência da pobrezinha).

A pergunta é:

Qual seria o montante pago de um seguro de vida em grupo comprado com um prêmio de R$ 3.000,00 anuais?

Ou

Não seria mais lógico para mim doar pessoalmente 75 cestas básicas no final do ano ou fazer uma doação de R$ 3.000 a uma instituição beneficente?  No frigir dos ovos, os esforços de 30 membros da loja representam o valor da contribuição de dois irmãos apenas...

E estas perguntas ficam martelando dentro de minha cabeça. Continuamente.

Ora, direis: "Estás desconsiderando a convivência com os irmãos de tua loja."

Vero. Este é um aspecto importantíssimo. 

Mas, já que estamos abrindo o coração, devo confessar que somente conheço a casa de dois deles  (sendo que um dos dois deixou a loja pouco depois da iniciação, decepcionado com a falta de discussão de assuntos importantes). E que somente eles e um outro irmão concederam-me a subida honra de visitar minha casa. E não foi por falta de convite.

Somos 30 membros da minha loja atual. 

Será que o meu é também o caso sobre qual ouvi irmãos de muitas outras lojas se queixarem:

Bom para ser "irmão", mas não bom o suficiente para ser amigo.