sábado, 20 de junho de 2009

FRACASSO

Meus bolinhos de bacalhau foram um fracasso total no almoço.
 
Meus bolinhos de arroz ao forno ficaram sem sal (esqueci de verificar o sal antes de fazer os bolinhos. Esqueci também de empaná-los em farinha de rosca...)
 
Hoje foi um dia negro na minha nova atividade.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Je m’en fou!

Quando recebi a notícia da morte de minha mãe, lembrei-me imediatamente das primeiras linhas da obra L'Etranger de Camus, "Aujourd'hui maman est morte...".

Daí, procurei, baixei o livro e pus-me a ler. São apenas 60 páginas, ou seja, dois dias de leitura, no máximo.

Um livro seco, na primeira pessoa, é um caso de Transtorno de Personalidade Esquizóide (TPE).

O estranho é que eu sempre achei que sofria de uma forma leve de TPE, e assim identifiquei-me bastante com a personagem de Camus.

Mersault (a personagem) tinha o que hoje conhecido na França como "je m'enfoutisme" que em português seria traduzido como "Tô-nem-aismo" uma doença da atual geração alienada criada pela globalização.

Para ele, nada tem importância; é indiferente a tudo, até mesmo à sua sorte.

Ao cometer um crime de morte (assassinou um árabe a tiros) ele é julgado pelo crime, mas o que vem a pesar realmente em sua condenação é a sua atitude durante o funeral de sua mãe. Naquele momento, sua personalidade esquizóide o levara a agir no funeral como se um estranho estivesse sendo enterrado, e isso é trazido à baila no julgamento e ele é transformado em um monstro insensível e condenado à guilhotina.

Bão. Eu não chego a tanto, mas desde garoto minha atitude em relação a quase tudo tem sido caracterizada por certo jemenfoutisme, ou de um traço de TPE. No fundo acho que é um mecanismo de defesa contra o sofrimento.

A ausência de envolvimento emocional é o aspecto principal, com todas as suas conseqüências. E um custo alto.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Barbas de molho...

Às vezes a gente tem a impressão de que está na marca do penalti.

Este ano tem sido particularmente marcado pelas reflexões relacionadas com a vida e a morte.

No início do ano, minha mãe, com 88 anos de idade foi internada ficando dez dias no Santa Catarina. Depois da alta, passou dois meses em minha casa, em convalescença com boa recuperação. Depois, com a volta da Maria do Carmo que estava na Alemanha fazendo um curso, ela foi para a casa dela onde ficou até decidir retornar a Caconde.

Bad idea... mas, ela estava decidida e não pudemos evitar.

O problema que víamos é que fora de nosso controle, ela poderia baixar a guarda e amolecer no tratamento. A família Souza não é famosa pela disciplina.

Além disso, em que pese a tranqüilidade e o ar puro, Caconde padece de absoluta falta de recursos médicos. O hospital decente mais próximo está a 200 km de distância.

Assim, no dia 23 lá estava ela de volta a São Paulo com uma infecção urinária que a levou de volta ao hospital por mais uma semana. Dois dias depois da alta, ela entrou em colapso pulmonar e sua condição cardíaca que era crítica a levou a óbito na noite de 29 para 30 de Maio.

No dia 20, a Dona Irma, mãe da Edna, fora internada também com pneumonia e ficou no hospital até o dia 29. Agora ela está aqui, na minha casa, sob os cuidados da Edna.

Esta manhã fui à padaria comprar leite e ouvi sobre o avião da Air France... um arrepio me passou pela espinha...

Eu vinha planejando uma viagem à Itália desde o ano passado, que iria acontecer de 30 de Maio a 15 de Junho. A viagem foi cancelada em virtude da crise econômica, não da crise de saúde na família.

Mas, eu fico pensando que se nada houvesse acontecido e a viagem tivesse sido mantida, considerando minha simpatia pela França e as tarifas muito interessantes da Air France, havia uma possibilidade muito grande de que eu e a Edna estivéssemos neste vôo que desapareceu no Atlântico.

Acho que tenho que por o rabo de molho...

In the mood...

Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, poeta e cidadão


 

A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.
Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.
De repente não tinha pai.
No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor tua lembrança
Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância
Boiaram do mar de minhas lágrimas. Vi-me eu menino
Correndo ao teu encontro. Na ilha noturna
Tinham-se apenas acendido os lampiões a gás, e a clarineta
De Augusto geralmente procrastinava a tarde.
Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho
Rangia nos trilhos a muitas praias de distância
Dizíamos: "E-vem meu pai!" Quando a curva
Se acendia de luzes semoventes, ah, corríamos
Corríamos ao teu encontro. A grande coisa era chegar antes
Mas ser marraio em teus braços, sentir por último
Os doces espinhos da tua barba.
Trazias de então uma expressão indizível de fidelidade e paciência
Teu rosto tinha os sulcos fundamentais da doçura
De quem se deixou ser. Teus ombros possantes
Se curvavam como ao peso da enorme poesia
Que não realizaste. O barbante cortava teus dedos
Pesados de mil embrulhos: carne, pão, utensílios
Para o cotidiano (e freqüentemente o binóculo
Que vivias comprando e com que te deixavas horas inteiras
Mirando o mar). Dize-me, meu pai
Que viste tantos anos através do teu óculo-de-alcance
Que nunca revelaste a ninguém?
Vencias o percurso entre a amendoeira e a casa como o atleta exausto no último lance da maratona.
Te grimpávamos. Eras penca de filho. Jamais
Uma palavra dura, um rosnar paterno. Entravas a casa humilde
A um gesto do mar. A noite se fechava
Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.

*



Muitas vezes te vi desejar. Desejavas. Deixavas-te olhando o mar
Com mirada de argonauta. Teus pequenos olhos feios
Buscavam ilhas, outras ilhas... – as imaculadas, inacessíveis
Ilhas do Tesouro. Querias. Querias um dia aportar
E trazer – depositar aos pés da amada as jóias fulgurantes
Do teu amor. Sim, foste descobridor, e entre eles
Dos mais provectos. Muitas vezes te vi, comandante
Comandar, batido de ventos, perdido na fosforescência
De vastos e noturnos oceanos
Sem jamais.

Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste
A suprema pobreza: o dom da poesia, e a capacidade de amar
Em silêncio. Foste um pobre. Mendigavas nosso amor
Em silêncio. Foste um no lado esquerdo. Mas
Teu amor inventou. Financiaste uma lancha
Movida a água: foi reta para o fundo. Partiste um dia
Para um brasil além, garimpeiro, sem medo e sem mácula.
Doze luas voltaste. Tua primogênita – diz-se –
Não te reconheceu. Trazias grandes barbas e pequenas águas-marinhas.
Não eram, meu pai. A mim me deste
Águas-marinhas grandes, povoadas de estrelas, ouriços
E guaiamus gigantes. A mim me deste águas-marinhas
Onde cada concha carregava uma pérola. As águas-marinhas que me deste
Foram meu primeiro leito nupcial.

*



           Eras, meu pai morto
           Um grande Clodoaldo
           Capaz de sonhar
           Melhor e mais alto
           Precursor do binômio
           Que reverteria
           Ao nome original
           Semente do sêmen
           Revolucionário
           Gentil-homem insigne
           Poeta e funcionário
           Sempre preterido
           Nunca titular
           Neto de Alexandre
           Filho de Maria
           Cônjuge de Lydia
           Pai da Poesia.

*



Diante de ti homem não sou, não quero ser. És pai do menino que eu fui.
Entre minha barba viva e a tua morta, todavia crescendo
Há um toque irrealizado. No entanto, meu pai
Quantas vezes ao ver-te dormir na cadeira de balanço de muitas salas
De muitas casas de muitas ruas
Não te beijei em meu pensamento! Já então teu sono
Prenunciava o morto que és, e minha angústia
Buscava ressuscitar-te. Ressuscitavas. Teu olhar
Vinha de longe, das cavernas imensas do teu amor, aflito
Como a querer defender. Vias-me e sossegavas.
Pouco nos dizíamos: "Como vai?". Como vais, meu pobre pai
No teu túmulo? Dormes, ou te deixas
A contemplar acima – eu bem me lembro! – perdido
Na decifração de como ser?
Ah, dor! Como quisera
Ser de novo criança em teus braços e ficar admirando tuas mãos!
Como quisera escutar-te de novo cantar criando em mim
A atonia do passado! Quantas baladas, meu pai
E que lindas! Quem te ensinou as doces cantigas
Com que embalavas meu dormir? Voga sempre o leve batel
A resvalar macio pelas correntezas do rio da paixão?
Prosseguem as donzelas em êxtase na noite à espera da barquinha
Que busca o seu adeus? E continua a rosa a dizer à brisa
Que já não mais precisa os beijos seus?
Calaste-te, meu pai. No teu ergástulo
A voz não é – a voz com que me apresentavas aos teus amigos:
"Esse é meu filho FULANO DE TAL". E na maneira
De dizê-lo – o vôo, o beijo, a bênção, a barba
Dura rocejando a pele, ai!

*



Tua morte, como todas, foi simples.
É coisa simples a morte. Dói, depois sossega. Quando sossegou –
Lembro-me que a manhã raiava em minha casa – já te havia eu
Recuperado totalmente: tal como te encontras agora, vestido de mim.
Não és, como não serás nunca para mim
Um cadáver sob um lençol.
És para mim aquele de quem muitos diziam: "É um poeta…"
Poeta foste, e és, meu pai. A mim me deste
O primeiro verso à namorada. Furtei-o
De entre teus papéis: quem sabe onde andará… Fui também
Verso teu: lembro ainda hoje o soneto que escreveste celebrando-me
No ventre materno. E depois, muitas vezes
Vi-te na rua, sem que me notasses, transeunte
Com um ar sempre mais ansioso do que a vida. Levava-te a ambição
De descobrir algo precioso que nos dar.
Por tudo o que não nos deste
Obrigado, meu pai.
Não te direi adeus, de vez que acordaste em mim
Com uma exatidão nunca sonhada. Em mim geraste
O Tempo: aí tens meu filho, e a certeza
De que, ainda obscura, a minha morte dá-lhe vida
Em prosseguimento à tua; aí tens meu filho
E a certeza de que lutarei por ele. Quando o viste a última vez
Era um menininho de três anos. Hoje cresceu
Em membros, palavras e dentes. Diz de ti, bilíngüe:
"Vovô was always teasing me…"
É meu filho, teu neto. Deste-lhe, em tua digna humildade
Um caminho: o meu caminho. Marcha ela na vanguarda do futuro
Para um mundo em paz: o teu mundo – o único em que soubeste viver;
aquele que, entre lágrimas, cantos e martírios, realizaste à tua volta.


 


in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "Nossa Senhora de Los Angeles"