terça-feira, 9 de novembro de 2010

Máquina do Tempo














Hoje, na hora da sobremesa, viajei no tempo...

Minha vizinha trouxe de seu sítio um saco de mangas. Manga comum, manga rosa, manga espada... fresquinhas, colhidas no pé, ainda sangrando.

Quando coloquei na boca e mordi a manga, fui engolido pelo vórtice do tempo e emergi no alto da mangueira no quintal da casa da Vó Chica, na última forquilha, empoleirado como um macaco, com a cara toda lambuzada.

O quintal da casa da Vó Chica era mágico, assim como o porão da casa onde durante muitos anos viveu a Militana,

ou Tana como a chamávamos, a primeira filha de escravos nascida em Caconde depois da Lei do Ventre livre. Apesar de ter a possibilidade de ocupar um aposento da casa, ela preferia morar naquele porão escuro e insalubre, em um catre. Nunca entendi por que. Acho que ela se convencera de que sendo negra, devia dormir na senzala. D

iariamente, lá vinha ela encarquilhada e curvada sobre sua bengalinha, saindo do porão buscar o café da manhã e voltava para seu porão escuro. De vez em quando ela nos pedia que fôssemos comprar querosene para sua lâmpada. A Militana está enterrada no mausoléu da família, já que sempre fez parte dela. Curioso é que minha mãe, na velhice ficou parecida com ela de rosto. Só que em negativo.

Acho que o quintal da casa da vó chica media quilômetros quadrados. Nele cabiam aventuras infindáveis, havia galhos e galhos de árvore onde podíamos amarrar cordas e improvisar balanços e “cipós” de tarzã. Além disso, no fundo do terreno existia – ainda existe - o Buracão, uma área que presumo seja pública,

já que ninguém se apossou dela nestes últimos cinquenta anos. Ali, nas encostas realizávamos nossas proezas de esquiadores e exploradores. Desciamos por ele que ficava no fundo dos quintais de todas as casas da rua, até emergirmos duas quadras abaixo, o que nos parecia uma distância enorme.

Ao lado da cozinha da casa de minha vó havia uma parreira de uva niagara. Junto a ela havia o tanque, ao lado do qual crescia um mamoeiro que me permitia subir na muralha da cadeia que ficava vizinha à casa. Dali ficava espiando os presos, habituais cachaceiros que eram recolhidos e que ali passavam a noite curtindo o porre. Às vezes passavam por um “tratamento” que consistia em um banho frio em um tanque existente no pátio. Ocasionalmente, os soldados da guarnição me ajudavam a descer da muralha para dentro do pátio e eu ficava por ali perambulando.

Os presos com penas mais longas eram alojados nas celas do edifício principal, sendo que uma delas ficava bem diante da porta de saída, com vista para a praça Sampaio Vidal. Passavam o tempo todo fabricando aquelas cobras articuladas, usando um cabo de vassoura e barbante. Fabricavam também aquele brinquedo do ginasta em forma de H, (vou fazer um depois, e ponho a foto aqui) em que a gente apertava as hastes e o ginasta se movia.

Do tanque corria superficialmente um “rego” de água que foi o cenário de batalhas épicas, onde nossos barcos tripulados por formigas desciam pela corrente até chegarem ao remanso dos copos de leite lá perto da primeira mangueira.

Havia duas grandes mangueiras, além da parreira, da uvaieira de onde cai e me arrebentei todo aos dezesseis anos, desfigurando meu lindo rostinho e também minha personalidade (mas isso é pano para outra manga), pitangueiras, um pé de araçá, um abacateiro e bananeira, também cenário de muitas aventuras e também de muita bronca devido às manchas nas roupas provocadas pela nódoa da bananeira.

Entre as duas mangueiras havia um buraco que resultara de alguma obra realizada na casa e que apresentava um barranco na direção das raízes da mangueira de cima. Certa vez, decidimos cavar um túnel para fazer uma “caverninha” e lá fomos nós. Secretamente. Cobríamos a boca do túnel quando saíamos. Quando o Tio Chico descobriu, nosso túnel dá estava chegando às raízes da mangueira, uns bons dois metros e havíamos criado um iglu para acomodar mais de um moleque.

Hoje eu fico imaginando o que teria aconte

cido se não existissem as raízes da mangueira que de alguma forma impediam o desmoronamento. Meu tio ficou possesso, jogou um cachorro morto dentro do túnel e tapou-o. Não me lembro se apanhamos ou não. Provavelmente sim.

Éramos completamente dementes.

A casa tinha um porão alto, cheio de morcegos, onde vivia a Militana. Ela morreu logo, e ficamos com o porão todinho para nossas aventuras. Havia muita mobília, baús cheios de coisas antigas que nós destruímos como vândalos enfurecidos.

Encontramos cunhetes de munição remanescentes da revolução constitucionalista (as tropas paulistas usaram a casa em 32, de onde tinham uma vista privilegiada das posições da trincheira dos mineiros, logo acima do campo do União. Até hoje a trincheira é visível,

embora poucas pessoas saibam disso e não exista de parte da prefeitura interesse algum em recuperar a memória da cidade. Certa vez estivemos na trincheira onde encontramos montes de cartuchos (provavelmente se escavarmos ali, ainda encontraremos alguns.

Doidinhos que éramos, abríamos os cartuchos de fuzil e recolhíamos a pólvora (eram pellets de cordite em formato de confetes quadradinhos) que queimávamos em fogueiras. Por sorte não tivemos a idéia de ver o que aconteceria de queimássemos um cartucho...

De volta ao século XXI...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

De berço da liberdade a cemitério dos direitos humanos...

Pouco a pouco, a França vai se tornando um país fascista governado por um grupo de extrema direita que todos os dias mancha a imagem de berço da liberdade, da igualdade e da fraternidade entre os homens.

 Mas,  dentro da França ainda existe um grupo de homens de bens que se revolta contra as injustiças: os maçons do Grande Oriente de França.

 Novos ataques relacionados como a ajuda médica do estado (A.M.E.)

 Data da Publicação: 05/11/2010

O Grande Oriente da França chama a atenção para o fato de que o projeto de orçamento para 2011, a Assistência Médica do Estado (EMA) tem sido objeto de novos ataques sob a forma de uma taxa de entrada de 30 euros.

No entanto, este benefício social é destinado aos mais pobres em situação irregular, ou seja, a parcela mais vulnerável da nossa população.

Este projeto não só viola a obrigação moral de fornecer cobertura médica e social mais ampla possível - um acesso ao atendimento igual para todos -, mas contém, além disso,  incoerências graves tanto em matéria de saúde pública quanto de economia.

De fato, os homens, mulheres e crianças assim visados encontram-se, de fato,  isolados e rejeitados como suspeitos de portarem doenças contagiosas não tratadas e, portanto, de representar um perigo bem  real se ela não for levada em conta para toda a população.

O Grande Oriente de França, fiel à sua concepção de uma proteção social que garanta a dignidade de todos, só pode condenar esta ação e convida para os políticos a abandoná-la.

 

Paris, 05 de novembro de 2010

http://bit.ly/cJGe1u

 

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Estados Unidos do Terceiro Mundo

O General Petraeus apoia a América do Terceiro Mundo

http://huff.to/9U5wWS

Se você quer entender uma parte significativa da razão pela qual os Estados Unidos estão caminhando para o status de América do Terceiro Mundo, conforme coloca Arianna Huffington no título de seu novo e provocativo livro, não lea o noticiário econômico. Nem olhe para o noticiário local. Basta considerar este comentário revelado quarta-feira por Steve Luxenberg do Washington Post do novo livro de Bob Woodward, As Guerras de Obama. Woodward cita o comandante da guerra no Afganistão general David Petraeus, dizendo:

Você tem que reconhecer também que eu não acho que você ganha esta guerra. Acho que você continua lutando. É um pouco como o Iraque, na verdade ... Sim, houve um enorme progresso no Iraque. Mas, ainda há ataques horríveis no Iraque, e você tem que ficar vigilante. Você tem que ficar atrás dele. Este é o tipo de luta em que estamos pelo resto de nossas vidas e, provavelmente, durnte toda a vida de nossos filhos.

Ok, esses itálicos são meus, não dele. Mas, basta esperar um momento para cair a ficha. Sua vida, não importa sua idade, e a vida de seu filho, mesmo que a criança ainda não tenha nascido --, temos que na palavra oficial do nosso general líder, vamos encarar isso, ele agora é um formulador de políticas de facto , assim como um guerreiro. Afinal, ele é considerado pouco menos que um semi-deus em ambos os lados do corredor do congresso, em Washington, o U.S. Grant do século XXI, anos em que, conforme ele destaca na mesma citação, pouco mais que um empate é o melhor que você pode esperar do mais brilhante general norte-americano que a supostamente pode produzir.

E tenha em mente que, pelo menos até onde sabemos sobre o livro de Woodward (ainda a ser lançado), Petraeus & Co. conseguiram encurralar um presidente profundamente relutante ("Eu não vou completar 10 anos ... "), que tem repetidamente demonstrado fraqueza diante da oposição, em uma escalada mais importante no Afeganistão. Só por um momento, imagine que o general Petraeus está certo, e que vamos completar 10 anos, seja qual for o que pensa o nosso presidente, e mais. Imagine só por um momento que nossas guerras multi-trilhonárias nunca devam acabar, que elas são, na verdade, como eles gostam de dizer em Washington "multigeracionais". E, para apoiá-las, vamos naturalmente precisar continuar alimentando nosso complexo industrial-militar-mercenário-pátria-segurança- inteligência-vigilância, algo como um assunto de trilhões de dólares pelo menos em todos os anos deste século.

E apenas imagine que essas guerras, onde quer que sejam, e na Guerra global contra o Terror (seja qual for o nome) que os acompanham estarão nas suas costas e nas costas dos seus filhos à medida que crescem e talvez dos filhos deles também. Imagine isso. E você pode ver como este país, já conduzido à beira de um penhasco por George W. Bush, Dick Cheney e os neoconservadores, já com uma basta mão de obra desempregada e uma infraestrutura envelhecida, desgastada, está sendo empurrado para o chão. Essa é a verdadeira história do século XXI que Arianna Huffington enfoca tão vividamente em seu livro. Esse é o pesadelo do nosso tempo.

Na verdade, Petraeus provavelmente não estará certo. Este país não vai ficar mais uma década no Afeganistão ou na guerra global contra o terror, e muito menos pelo tempo de vida de nossos filhos. Nós já não temos os meios necessários. Mas, no momento em que a versão misturada de Petraeus de política externa e guerra começa a chegar ao fim, qualquer que seja ele, uma coisa é garantida: Não vai ter sobrado muito mais que seja reconhecidamente americano sobre a América. Afinal, em minha própria vida já fomos de um país do pode-fazer até um país do não-pode-fazer com um governo ("a burocracia") que ninguém realmente espera seja capaz de realizar muita coisa que importe, desde ganhar guerras e reconstruir cidades até colocar as pessoas de volta ao trabalho. Esta já é uma definição razoável de um país dando duro para alcançar o status de Terceiro Mundo.

Obrigado, General Petraeus - seja o que for que você fez no Iraque ou no Afeganistão, você nos ajudou a perder aqui em casa.

Tom Engelhardt, co-fundador do American Empire Project, dirige o Nation Institute's TomDispatch.com . Seu livro mais recente, The American Way of War: How Bush's war became Obama's (Haymarket Books), acaba de ser publicado. Você pode pegá-lo discutindo a guerra no estilo americano e seu livro em um vídeo Timothy TOMCAST MacBain clicando aqui .

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Manifestação do Grande Oriente de França em relação à absurda deportação de ciganos pelo governo francês

Na França, a Maçonaria ainda existe.   -  http://bit.ly/bQjv6Y  Lá tem Grão Mestre.

 

Sobre o discurso de Grenoble pelo Presidente da República em 30 de julho de 2010

Uma obediência maçónica não é um partido político e não deve se tornar um.

No entanto, o Grande Oriente de França não é uma obediência como as outras, ele associa a uma iniciação maçônica tradicional o envolvimento com a sociedade. Seu percurso republicano o levou a construir a República, seus valores, seus princípios, e é por isso que se envolve no debate público. Nem cortesão, nem partidário, o Grande Oriente de França deve tomar uma posição sobre as principais questões que afetam a república social, secular e democrática.

O discurso proferido em Grenoble pelo Presidente da República em 30 de julho, sem dúvida, merece ser lido na íntegra, mas mesmo assim determinados pontos merecem enérgicos comentários.

Citação:

"Da mesma forma, vamos reavaliar os motivos que levam à perda de nacionalidade francesa. Eu assumo minhas responsabilidades. A nacionalidade francesa deve poder ser retirada de qualquer pessoa de origem estrangeira que deliberadamente tenha atentado contra a vida de um militar ou policial, ou de qualquer outra pessoa investida de autoridade pública. A nacionalidade francesa é um mérito e é preciso se mostrar digno dela. Quando se ataca um agente da lei, não se é mais digno de ser francês. Espero também que a aquisição da nacionalidade francesa por um menor infrator no momento da sua maioridade não seja mais automático. "

Para o Grande Oriente de França, se a aquisição da nacionalidade deve ser objeto de dispositivos mostrando a adesão do interessado à base de valores republicanos, especialmente no que diz respeito ao direito civil e devido respeito aos indivíduos, particularmente mulheres, a perda é um ato grav[issimo que deve ser limitada a fatos excepcionais e que não será, de todo modo, possívl a não ser após uma alteração ao artigo 1 º da Constituição, que estabelece a igualdade de todos cidadãos perante a lei, sem distinção de origem. Qualquer outra interpretação colocará esta proposta fora do campo republicano.

Citação:

"Finalmente, temos de admitir, devo dizer que sofremos as conseqüências de cinquenta anos de imigração insuficientemente regulamentada, o que levou a uma falha na integração. Somos tão orgulhosos de nosso sistema de integração. Talvez seja hora de acordar? Para ver o que ele produziu. Funcionou. Mas não funciona mais. Eu nunca me deixei intimidar pelo pensamento único. Ainda assim, é improvável que os jovens da segunda ou terceira geração se sintam menos franceses  que seus pais ou avós. Todos aqui podem dar seu testemunho. Todos. Todos vocês têm exemplos. Por que não o dizemos? Nós estamos com medo? A mim não é a constatação que assusta, é realidade. Não temos o direito a ser complacentes nesta área ."

O Grande Oriente de França, muitas vezes, chamou a atenção sobre o dispositivo de integração em toda a sua complexidade e sua especificidade, e o estudou especialmente durante a conferência de Calais. Mas ele ainda lembra sempre que a imigração é uma oportunidade para a França que deve assumir sua história colonial, assim como os desafios do envelhecimento da população. É, portanto, necessário mais e melhor integração contra a exclusão.

Citação:

"E é com este espírito que eu pedi ao ministro do interior que pusesse um fim aos assentamentos dos campos de Ciganos. Estas são áreas de ilegalidade que não podem ser toleradas na França. Não se trata de estigmatizar o povo Roma, de forma alguma. Temos, desde a lei Besson feito grandes avanços nas áreas colocadas à disposição deles. Quando eu me tornei ministro do Interior, em 2002, menos de 20% das áreas de estacionamento estava planejadas. Eu verifiquei com o ministro. Hoje, mais de 60% dos estacionamento legais estão prevoistos. Os ciganos que vêm para a França para se istalar em locais legais são bem vindos. Mas, como chefe de estado,  posso aceitar que existam 539 assentamentos ilegais em 2010, na França? Quem pode aceitar isso? Eu vi este ou aquele político dizia: "mas por que você se preocupa com isso, o problema não existe". Ele não se coloca para um político cujo domicílio não é ao lado de um acampamento. Talvez sua opinião fosse diferente se a questão fosse com ele mesmo?".

O Grande Oriente da França não tem qualquer necessidade de recordar a estigmatização de que são vítimas as pessoas desabrigadas e nômades; e constata muitas vezes a situação precária em que eles são jogados. Não há desculpa para os atos de criminalidade, delinquência ou violência de que alguns seriam autores ou responsáveis. Mas uma política determinada de localização, escolarização, e  integração responderá sempre melhor que a exclusão.

O Grande Oriente de França demonstrou já há bastante tempo que não é nem cego, nem frouxo e  que ele, naturalmente apoia as vítimas para que elas sejam defendidas em um estado de direito.

O estigma e a exclusão, a confusão e o amálgama não servem para resolver os problemas que apresentam.

Conforme a Declaração dos Direitos Humanos, apelamos para a construção de uma resposta republicana aos problemas apresentados onde a violência física é o ponto mais insuportável, e que passe por uma educação para a cidadania com seus direitos e seus deveres e escola emancipadora.
 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

AÇÃO POSSÍVEL DE MAÇONS NOS GRANDES CENTROS


 

As lojas maçônicas dos grandes centros têm um desempenho abaixo da média. É uma constatação triste. Muitos recursos desperdiçados que poderiam ser mais bem direcionados.

Nos centros menores, as lojas empolgam a liderança comunitária e através dela conseguem retomar o seu antigo viço e cumprir parcialmente seu destino histórico. Ainda que sua condição atual seja apenas uma pálida imagem de sua influência e importância no cenário brasileiro.

Antes de prosseguir, por favor, dê uma olhada em www.assovio.wordpress.com .

Este é o blog de nossa associação virtual de vizinhos, que criei. Como funciona:

  1. Contatei os vizinhos e consegui o e-mail e telefone de cada um. (Seria bom incluir o CEP no banco de dados para permitir segmentação de ações.)
  2. Criei um grupo de discussão (no google, mas pode ser yahoogroups ou outro) através do qual divulgo tudo o que é feito em nome da Assovio, convoco o povo,
  3. Os "associados" encaminham fotos de buracos, de podas irregulares, aqueles probleminhas que nos incomodam no dia a dia. Estes problemas são descritos e publicados no blog.

    A publicação no blog é super-simples. Basta escrever um e-mail e mandar para o blog. O texto é publicado. O Assunto do E-mail se torna o título da matéria. (Precisa apenas abrir um perfil em www.wordpress.com , e mandar bala.)

  4. Levantamos os e-mails dos funcionários da Sub-prefeitura e encaminho a eles os pedidos, além de incluir um SAC no site da prefeitura. Mando sempre cópia para a seção São Paulo Reclama do Estadão (spreclama.estado@grupoestado.com.br ) e para o Prefeito (gabinetedoprefeito@PREFEITURA.SP.GOB.br )

Dessa forma, cada maçom pode se tornar um defensor dos direitos do povo, pode denunciar desmandos, cavar masmorras aos vícios e levantar templos à virtude, DE VERDADE, não só em palavras...

Se houver interesse, minha idéia é a seguinte:

  • Manter um blog central www.assovio.wordpress.com onde serão informados os blogs secundários. (Eu me encarregaria de incluir os blogs secundários neste blog central, assim que fosse informado de sua existência).
  • Cada blog novo teria sempre a estrutura www.assovio-xxxxx.wordpress.com , onde o xxxxx indicaria o nome do bairro ou cidade a que se refere o blog.
  • Podemos ter quantos sub-blogs quisermos, cada um gerenciado por um irmão que tentaria recrutar o maior número de vizinhos possível, sempre coletando um NOME (não precisa ser completo), telefone, e-mail e CEP.


 

No meu caso, a motivação inicial era criar uma "Neighborhood Watch" (http://en.wikipedia.org/wiki/Neighborhood_watch) onde os vizinhos se organizam para ficarem alertas contra possíveis problemas. Em São Paulo, há uma experiência no Morumbi que deu certo. A nossa não deu. Ou melhor, funciona parcialmente.

Nas grandes cidades, as pessoas vivem atrás de grades e muitas vezes nem conhecem os vizinhos.

Eu planejava criar um "Tambor" (o nome que é dado em minha loja ao esquema de comunicação rápida entre os irmãos, onde um irmão tem a obrigação de avisar apenas dois outros irmãos até que todos recebam a mensagem) onde um vizinho teria o número de dois ou três outros vizinhos mais próximos a quem telefonaria caso detectasse algum movimento suspeito nas imediações.


 

Se tiverem interesse mande um e-mail para:

e-mail: assovio@gmail.com

Maçonaria e a Conjuração Mineira – Algumas idéias

Inúmeras vezes, vi e ouvi textos sobre a História da Maçonaria em que o autor, por imprecisão linguística ou, até mesmo, ignorância afirma que a maçonaria surgiu em 1717 e da mesma forma, que a maçonaria brasileira teria surgido em 1822. Confundem a consolidação de lojas em uma organização central, com a própria instituição. É verdade que no Brasil foi um processo meio português, onde na falta de lojas para consolidar, escolheu-se fracionar a única loja existente em três unidades, de forma a atender ao pré-requisito de formação de um Grande Oriente.

Esse "erro" é muito comum devido à tendência da historiografia tradicional se concentrar em datas e personagens históricos, em detrimento do contexto e das forças vivas da sociedade, que são os verdadeiros protagonistas da história.

A história da maçonaria oferece uma dificuldade adicional que é o segredo. Dessa forma, o acesso aos arquivos é difícil pois, muitas vezes, arquivos foram destruídos principalmente como resultado de perseguições ou ameaças de perseguição. Como bem lembrou o Dr. Alexandre Mansur Barata em sua dissertação de doutorado "Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência", a falta de documentos pode ser suprida pela análise das consequências dos atos.

Essas "mal-traçadas linhas" são baseadas naquele excelente trabalho sobre a maçonaria brasileira no período de 1790 até 1822.

A questão aventada pelo ilustre irmão Jorge Cyrino foi em relação ao rito que seria seguido pelos conjurados. Na realidade, o rito é de somenos importância, se considerarmos que não há possibilidade de se saber se os conjurados maçons pertenciam a uma loja. O que podemos especular é sobre as influências que agiram sobre o movimento, à luz de outras informações sobre a maçonaria no século XVIII.

Mister se faz que se recue até 1717 quando da fundação da Grande Loja de Londres, esta sim, uma consolidação de quatro lojas maçônicas já existentes naquela cidade, a saber, a Loja da Taverna do Ganso e a Grelha, Loja da Taverna da Coroa, Loja da Taverna da Macieira e Loja da Taverna do Copo e as Uvas.

Esta Grande Loja arvorou-se em herdeira "direta e legítima da maçonaria operativa medieval", e sofreu a influência dos protestantes John Anderson e do Pastor Desagulliers Homem de grande erudição e de forte personalidade foi ele, sem dúvida, quem abriu as portas das lojas aos judeus, muçulmanos e hindus. Até então, os ritos exclusivamente cristãos dos maçons operativos não permitiam essas adesões. É o que explica o aspecto agnóstico das Constituições de Anderson onde apenas se exige do postulante que "professe uma religião com a qual todos os homens concordem". (Ir.´. Lucas Galdeano in http://www.freemasons-freemasonry.com/galdeano_tratado.html )

Estes maçons da Grande Loja de Londres eram os "modernos".

Nos anos seguintes, foram fundadas as Grandes Lojas da Irlanda (1725) e da Escócia (1736) que adotaram uma posição mais conservadora e que se recusaram a reconhecer a Grande Loja de Londres, por conta da modernidade desta última, que não exigia a presença do Livro da Lei e permita a adesão de pessoas de diferentes religiões.

Em 1726, a maçonaria foi transplantada para a França por meio de uma loja inglesa que funcionava na taverna AU LOUIS D'ARGEN sob jurisdição Inglesa. Em 1728 é fundada a Grande Loja de França.

Entre 1735 e 1738 surgem, praticamente ao mesmo tempo, os ritos Francês - muito parecido com o "emulation", mas com um viés jacobino e libertário - e o Escocês que vai pouco a pouco se desgarrando do rito tradicional, por força de influências de nobres católicos fugidos da Escócia e Inglaterra e que não podiam se contentar com a simplicidade do rito tradicional. Precisavam acomodar seus egos e seus títulos em uma ordem que os reconhecesse. Some-se a isso o fato de que as bulas papais tinham assinalado para os inquisidores determinando que "além de seu caráter secreto, a maçonaria era contrária à fé católica porque pressupunha a convivência entre homens de religiões diferentes. Essa 'tolerância religiosa' defendida pelos maçons era considerada pelos inquisidores como 'imoral', pois negava a religião revelada, caindo sobre aqueles que a defendiam a suspeita de heresia." (Barata, p. 170). Os maçons católicos franceses preferiram ajustar o rito para ficar mais "soft" e poder ser palatável para a nobreza.

Em 1744, surge o rito Adonihramita, minoritário, originário de um erro tipográfico que gerou uma discussão estéril e, em consequência, mais um rito desnecessário.

Em 1751, maçons ingleses conservadores fundam a Antient Grand Lodge of England que se contrapunha aos "modernos" da Grande Loja de Londres. Eram os "Antigos" (No século seguinte, as Grandes Lojas da Irlanda e da Escócia reconhecem a Grande Loja de Londres – mas, para isso esta tem que ceder em seus princípios e incluir a obrigatoriedade do Livro da Lei – e funda-se a GLUI - Grande Loja Unida da Inglaterra – que se arvora em Vaticano na Maçonaria.

De maneira geral, o panorama da maçonaria européia exibia a polaridade entre a maçonaria inglesa conservadora e a maçonaria francesa caracterizada pelo pensamento libertário que culminaria na Revolução Francesa. Além disso, diferentemente do que ocorria no "environment" inglês que era protestante, rompido com o Vaticano, a presença da Inquisição e da Santa Madre na França funcionou como a lei física da ação e reação.

Há que se considerar que o fluxo de informações nestes tempos era muito lento e a evolução e transferência de influências era difícil. Mas, os deslocamentos militares ofereciam uma agilidade incomum no trânsito de idéias, e muitos militares eram maçons, assim como comerciantes e aventureiros.

O panorama da evolução da Maçonaria tem como pano de fundo a crise do sistema colonial, o surgimento da industrialização inglesa que demandava novos mercados consumidores e a evolução do pensamento que culmina com o Iluminismo onde "baseados na razão (racionalismo), os iluministas contestavam a origem divina do poder real e defendiam a idéia de que o poder deveria emanar do povo e em seu nome ser exercido. Apesar de toda a oposição e censura dos Estados absolutistas, as idéias iluministas se difundiam e empolgavam os intelectuais, quer nas metrópoles, quer nas colônias."

Portugal se encontrava sob o jugo da Espanha no Sec. XVII. A partir de 1640, a Inglaterra, muito desinteressadamente passa a proteger Portugal, que recentemente recuperara sua independência.

Mais tarde, em 1661, os holandeses assinaram o acordo da Paz de Haia, reconhecendo o domínio português sobre o Nordeste brasileiro e a região africana de Angola. Em troca, os portugueses aceitaram a dominação holandesa em suas possessões do Oriente e pagaram uma indenização de quatro milhões de cruzados (moeda portuguesa) à Holanda.

A Inglaterra, que já se impunha como nova potência marítima, serviu de intermediária nos acordos entre flamengos e lusitanos.

Em troca do apoio a Portugal, a Inglaterra ficou com os domínios portugueses de Tânger (África) e Bombaim (Ásia), e a permissão para o trânsito de mercadores ingleses no comércio português da Índia. Por acordo, que culmina com o casamento entre a princesa Catarina (portuguesa) e o rei Carlos II (inglês), Portugal recebeu da Grã-Bretanha dois milhões de cruzados, suficientes para quitar metade da indenização prometida à Holanda. Pela outra metade, os portugueses tiveram de pagar juros em libras aos britânicos.

Com isso, a Inglaterra passou a influenciar Portugal, com quem estabeleceu uma aliança econômica e política. Através dessa aliança, torna-se o principal fornecedor de manufaturas inglesas às colônias portuguesas. Quebra-se o domínio comercial holandês e os britânicos substituem os flamengos enquanto grande potência pré-capitalista.

A partir do século XVII, após a expulsão dos holandeses, o Brasil tornou-se a mais importante colônia portuguesa. Isso porque a Coroa lusitana perdera pontos comerciais

importantes nos acordos com a Holanda e a Inglaterra, tendo que voltar- se integralmente à exploração econômica na colônia brasileira.

Assim é que em 1703, Portugal enfraquecido e dependente dos ingleses assina o Tratado de Panos e Vinhos, aumentando a penetração da Inglaterra na sociedade portuguesa via comércio, o que leva a um aumento da população de ingleses no Reino, tanto no continente e nas ilhas quanto nas colônias. E estes comerciantes são os arautos da boa nova – a maçonaria.

Assim é que em 1727 é fundada uma Loja Maçônica em Lisboa, alcunhada pela Inquisição de "Hereges Mercantes" composta de comerciantes ingleses e em 1733 funda-se outra loja "Casa Real dos Pedreiros Livres de Lusitânia, composta de católicos irlandeses. Observe-se que o lapso entre a organização da Grande Loja da Inglaterra e a fundação de lojas em Portugal é muito curto, o que poderia indicar que se tratava de maçons ingleses, de lojas organizadas antes da fundação da GL de Londres.

1738. Uma data muito importante para os maçons.

Naquele ano, Clemente XII publica a In Eminentis, encíclica em que determina a excomunhão dos católicos que pertencessem à Maçonaria. Em Portugal, a Casa Real dos Pedreiros Livres, composta por católicos irlandeses imediatamente se dissolve em obediência ao Papa.

Em 1742, é fundada uma loja de influência francesa, presidida pelo suiço Johann Coustos e que seria ferozmente perseguido pela Inquisição.

Os autos da inquisição dessa época estão cheios de incidentes envolvendo Pedreiros Livres, o que indica ter havido uma difusão das idéias maçonicas entre os portugueses.

Em 1751, a Santa Madre volta a atacar com uma segunda bula, a Providas de Benedito XIV que agrava a situação dos maçons que se recolhem para não sofrer consequências.

Nos autos da inquisição, fica evidente que a maçonaria francesa, revolucionária, liberal representava uma ameaça ao status quo. Entre as perguntas a serem feitas às testemunhas, havia:

"Se alguma pessoa afirma que a Confissão Sacramental só se deve fazer para receber o escrito, dizendo com estas palavras – para o Recibo, para se não andar com estórias e abusos da Excomunhão. Outrossim, que louve aos Pedreiros Livres com especialidade os da França, (grifo meu) afirmando que estes eram a melhor gente que havia e que eram bons homens." (IANTT, Inquisição de Lisboa, Maço 38, n. 411).

Com a ascensão do Marques de Pombal, para muitos um maçom dedicado, cujo governo propiciou grande liberdade aos maçons portugueses e também aumentou a influência da maçonaria francesa, via contratação de mercenários franceses empregados no governo português. Em 1777 cai Pombal e os reacionários portugueses retomam o poder.

Mas, retrocedamos ao início do Século XVIII quando o colonialismo e o mercantilismo desmorona e os ingleses assumem a liderança com sua novel indústria.

Portugal havia se enterrado em dívidas e quem havia financiado eram os ingleses, de olho no grande mercado representado pelas possessões portuguesas. Para adicionar mais um problema, Portugal expulsa os holandeses que produziam e comercializavam o açúcar. Os holandeses mudam-se para as Antilhas levando mudas de cana e começam a plantar cana e produzir açúcar ali. Como eles detinham o circuito de comercialização mundial da commodity, os portugueses perderam mercado e o preço desabou, comprometendo a economia portuguesa. A saída foi incrementar a busca por metais preciosos que já ocorria, mas que a partir daí tornou-se crucial. Havia que se pagar as dívidas.

Com a descoberta de ouro em Minas Gerais, o Brasil passa a ser o centro do império português e um grande polo de atração de imigrantes e aventureiros, entre eles muitos maçons.

Conforme Barata, "É bem possível que até o final do século XVIII, a Maçonaria não funcionasse na América Portuguesa, entendendo-se por tal uma organização institucionalizada e com funcionamento regular nos mesmos moldes das outras organizações maçônicas internacionais."

Durante o século XVIII, portanto, maçons europeus transitavam pelo Brasil e se estabeleciam no norte e no Rio de Janeiro e estavam ligados às lojas-mães, sem que haja evidências, a não ser na tradição oral, de terem constituído lojas locais.

As lojas-mães de alguns destes maçons tinham influência inglesa e, provavelmente, conheciam e praticavam o rito tradicional da Grande Loja de Londres que chegou aos nossos dias como Emulation ou York.

Outra parte desses maçons, todavia, foi influenciada por lojas de origem francesa, mais libertarias e revolucionárias, mas que também, provavelmente, conheciam e praticavam um rito praticamente idêntico ao rito inglês, com traços iluministas de anti-clericalismo e 'republicanismo' característicos da maçonaria francesa desde seu princípio.

Tanto em Portugal quanto no Brasil, as referências à ameaça dos Pedreiros-Livres são, na maior parte das vezes, relacionadas com a França, pois a maçonaria inglesa não representava uma ameaça ao status quo da monarquia portuguesa.

Tal receio foi alimentado pela publicação em 1797, em Londres, do famoso livro do Abade Barruel, Memoires pour servir à l'histoire du Jacobinisme, cuja tese principal era que a Revolução Francesa teria sido tramada nas lojas maçônicas. (Barata, p. 48)

Em 1799, na Bahia, procedeu-se um sumário de culpa contra o Padre Agostinho Gomes "tendo em vista que era do conhecimento geral em Lisboa que as 'principais pessoas' da cidade de Salvador 'por uma loucura incompreensível, e por não entenderem os seus interesses, se acham infestas dos abomináveis princípios franceses" (grifo meu) (Barata, p. 44)

Em 1794, Caetano José Pinto foi denunciado por supeita de pertencer à maçonaria, tendo em vista ouvir dizer que ele "conhecera Pedreiros Livres, e que o chegaram a convidar para seu sócio, o que não afirmo com toda certeza, assim como também se ele disse ter-lhe sucedido isto no Porto ou em França por onde viajou (grifo meu)". (Barata, p. 45)

Segundo Augusto de Lima Junior, in História da Inconfidência de Minas Gerais, "Tiradentes teria sido iniciado na maçonaria no Rio de Janeiro, e os maçons cariocas teriam articulado a aproximação de Thomas Jefferson, embaixador norte-americano na França e o estudante carioca da universidade de Montpellier, José Joaquim da Mata, no sentido de tentar obter o apoio dos Estados Unidos à revolta na colônia portuguesa. José Joaquim da Maia teria se apresentado como um delegado dos pedreiros-livres do Rio de Janeiro". (Augusto de LIMA JUNIOR, História da Inconfidência Mineira).

Nos Autos da Devassa da Inconfidência surgiu a "suposição da existência de uma loja maçônica formada por comerciantes da praça do Rio de Janeiro que teriam fornecido a credencial maçônica necessária para que José Joaquim da Maia, o Vendek, estudante brasileiro na Universidade de Montpellier se encontrasse comm o embaixador norte-americano na França, Thomas Jefferson, com o objetivo de conseguir o apoio dos Estados Unidos para a revolta que se articulava em Minas Gerais. E também o fato de que muitos desses comerciantes maçons tenham sustentado os inconfidentes mineiros durante o período em que estiveram presos no Rio de Janeiro à espera da sentença final."

Conforme Alexandre Barata, "A presença de maçons numa vila interior da capitania do Grão-Pará no início do século XIX (1803) sugere que a sociabilidade maçonica estava muito mais dispersa na América Portuguesa. Mas, uma outra surpresa trazia o relato de José Bernardo: a sua iniciação maççônica teria acontecido em Caiena, por ocasião da conquista daquela possessão francesa." (grifos meus)

Em outro ponto: "Seu crime era o de ser pedreiro-livre. Pelo que consta de sua confissão, teria sido iniciado na maçonaria em julho de 1791 a convite de dois franceses, negociantes como ele." (grifo meu)

"No início do século XIX, diversas lojas maçônicas começaram a funcionar, ora se filiando à Obediência Francesa, ora à portuguesa. O Rio de Janeiro, a Bahia e Pernambuco se transformaram em espaços de crescente efervescência maçônica." (grifo meu)

Segundo manifesto de José Bonifácio de Andrada e Silva, a primeira loja maçônica a ter funcionamento regular no Brasil for a Reunião, fundada em 1801 em Niterói e filiada, dois anos depois, ao Grand Orient de l'Ile de France. (grifo meu)

Concluindo e voltando à indagação inicial sobre o rito sob o qual operavam os conjurados da Inconfidência Mineira, chega-se à conclusão de que a maior probabilidade é que fosse o rito de emulação "'moderno" em sua vertente jacobina e francesa, vez que tanto a maçonaria portuguesa quanto a nascente maçonaria brasileira exibem laços importantes com a Maçonaria Francesa.