quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Estados Unidos do Terceiro Mundo

O General Petraeus apoia a América do Terceiro Mundo

http://huff.to/9U5wWS

Se você quer entender uma parte significativa da razão pela qual os Estados Unidos estão caminhando para o status de América do Terceiro Mundo, conforme coloca Arianna Huffington no título de seu novo e provocativo livro, não lea o noticiário econômico. Nem olhe para o noticiário local. Basta considerar este comentário revelado quarta-feira por Steve Luxenberg do Washington Post do novo livro de Bob Woodward, As Guerras de Obama. Woodward cita o comandante da guerra no Afganistão general David Petraeus, dizendo:

Você tem que reconhecer também que eu não acho que você ganha esta guerra. Acho que você continua lutando. É um pouco como o Iraque, na verdade ... Sim, houve um enorme progresso no Iraque. Mas, ainda há ataques horríveis no Iraque, e você tem que ficar vigilante. Você tem que ficar atrás dele. Este é o tipo de luta em que estamos pelo resto de nossas vidas e, provavelmente, durnte toda a vida de nossos filhos.

Ok, esses itálicos são meus, não dele. Mas, basta esperar um momento para cair a ficha. Sua vida, não importa sua idade, e a vida de seu filho, mesmo que a criança ainda não tenha nascido --, temos que na palavra oficial do nosso general líder, vamos encarar isso, ele agora é um formulador de políticas de facto , assim como um guerreiro. Afinal, ele é considerado pouco menos que um semi-deus em ambos os lados do corredor do congresso, em Washington, o U.S. Grant do século XXI, anos em que, conforme ele destaca na mesma citação, pouco mais que um empate é o melhor que você pode esperar do mais brilhante general norte-americano que a supostamente pode produzir.

E tenha em mente que, pelo menos até onde sabemos sobre o livro de Woodward (ainda a ser lançado), Petraeus & Co. conseguiram encurralar um presidente profundamente relutante ("Eu não vou completar 10 anos ... "), que tem repetidamente demonstrado fraqueza diante da oposição, em uma escalada mais importante no Afeganistão. Só por um momento, imagine que o general Petraeus está certo, e que vamos completar 10 anos, seja qual for o que pensa o nosso presidente, e mais. Imagine só por um momento que nossas guerras multi-trilhonárias nunca devam acabar, que elas são, na verdade, como eles gostam de dizer em Washington "multigeracionais". E, para apoiá-las, vamos naturalmente precisar continuar alimentando nosso complexo industrial-militar-mercenário-pátria-segurança- inteligência-vigilância, algo como um assunto de trilhões de dólares pelo menos em todos os anos deste século.

E apenas imagine que essas guerras, onde quer que sejam, e na Guerra global contra o Terror (seja qual for o nome) que os acompanham estarão nas suas costas e nas costas dos seus filhos à medida que crescem e talvez dos filhos deles também. Imagine isso. E você pode ver como este país, já conduzido à beira de um penhasco por George W. Bush, Dick Cheney e os neoconservadores, já com uma basta mão de obra desempregada e uma infraestrutura envelhecida, desgastada, está sendo empurrado para o chão. Essa é a verdadeira história do século XXI que Arianna Huffington enfoca tão vividamente em seu livro. Esse é o pesadelo do nosso tempo.

Na verdade, Petraeus provavelmente não estará certo. Este país não vai ficar mais uma década no Afeganistão ou na guerra global contra o terror, e muito menos pelo tempo de vida de nossos filhos. Nós já não temos os meios necessários. Mas, no momento em que a versão misturada de Petraeus de política externa e guerra começa a chegar ao fim, qualquer que seja ele, uma coisa é garantida: Não vai ter sobrado muito mais que seja reconhecidamente americano sobre a América. Afinal, em minha própria vida já fomos de um país do pode-fazer até um país do não-pode-fazer com um governo ("a burocracia") que ninguém realmente espera seja capaz de realizar muita coisa que importe, desde ganhar guerras e reconstruir cidades até colocar as pessoas de volta ao trabalho. Esta já é uma definição razoável de um país dando duro para alcançar o status de Terceiro Mundo.

Obrigado, General Petraeus - seja o que for que você fez no Iraque ou no Afeganistão, você nos ajudou a perder aqui em casa.

Tom Engelhardt, co-fundador do American Empire Project, dirige o Nation Institute's TomDispatch.com . Seu livro mais recente, The American Way of War: How Bush's war became Obama's (Haymarket Books), acaba de ser publicado. Você pode pegá-lo discutindo a guerra no estilo americano e seu livro em um vídeo Timothy TOMCAST MacBain clicando aqui .

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Manifestação do Grande Oriente de França em relação à absurda deportação de ciganos pelo governo francês

Na França, a Maçonaria ainda existe.   -  http://bit.ly/bQjv6Y  Lá tem Grão Mestre.

 

Sobre o discurso de Grenoble pelo Presidente da República em 30 de julho de 2010

Uma obediência maçónica não é um partido político e não deve se tornar um.

No entanto, o Grande Oriente de França não é uma obediência como as outras, ele associa a uma iniciação maçônica tradicional o envolvimento com a sociedade. Seu percurso republicano o levou a construir a República, seus valores, seus princípios, e é por isso que se envolve no debate público. Nem cortesão, nem partidário, o Grande Oriente de França deve tomar uma posição sobre as principais questões que afetam a república social, secular e democrática.

O discurso proferido em Grenoble pelo Presidente da República em 30 de julho, sem dúvida, merece ser lido na íntegra, mas mesmo assim determinados pontos merecem enérgicos comentários.

Citação:

"Da mesma forma, vamos reavaliar os motivos que levam à perda de nacionalidade francesa. Eu assumo minhas responsabilidades. A nacionalidade francesa deve poder ser retirada de qualquer pessoa de origem estrangeira que deliberadamente tenha atentado contra a vida de um militar ou policial, ou de qualquer outra pessoa investida de autoridade pública. A nacionalidade francesa é um mérito e é preciso se mostrar digno dela. Quando se ataca um agente da lei, não se é mais digno de ser francês. Espero também que a aquisição da nacionalidade francesa por um menor infrator no momento da sua maioridade não seja mais automático. "

Para o Grande Oriente de França, se a aquisição da nacionalidade deve ser objeto de dispositivos mostrando a adesão do interessado à base de valores republicanos, especialmente no que diz respeito ao direito civil e devido respeito aos indivíduos, particularmente mulheres, a perda é um ato grav[issimo que deve ser limitada a fatos excepcionais e que não será, de todo modo, possívl a não ser após uma alteração ao artigo 1 º da Constituição, que estabelece a igualdade de todos cidadãos perante a lei, sem distinção de origem. Qualquer outra interpretação colocará esta proposta fora do campo republicano.

Citação:

"Finalmente, temos de admitir, devo dizer que sofremos as conseqüências de cinquenta anos de imigração insuficientemente regulamentada, o que levou a uma falha na integração. Somos tão orgulhosos de nosso sistema de integração. Talvez seja hora de acordar? Para ver o que ele produziu. Funcionou. Mas não funciona mais. Eu nunca me deixei intimidar pelo pensamento único. Ainda assim, é improvável que os jovens da segunda ou terceira geração se sintam menos franceses  que seus pais ou avós. Todos aqui podem dar seu testemunho. Todos. Todos vocês têm exemplos. Por que não o dizemos? Nós estamos com medo? A mim não é a constatação que assusta, é realidade. Não temos o direito a ser complacentes nesta área ."

O Grande Oriente de França, muitas vezes, chamou a atenção sobre o dispositivo de integração em toda a sua complexidade e sua especificidade, e o estudou especialmente durante a conferência de Calais. Mas ele ainda lembra sempre que a imigração é uma oportunidade para a França que deve assumir sua história colonial, assim como os desafios do envelhecimento da população. É, portanto, necessário mais e melhor integração contra a exclusão.

Citação:

"E é com este espírito que eu pedi ao ministro do interior que pusesse um fim aos assentamentos dos campos de Ciganos. Estas são áreas de ilegalidade que não podem ser toleradas na França. Não se trata de estigmatizar o povo Roma, de forma alguma. Temos, desde a lei Besson feito grandes avanços nas áreas colocadas à disposição deles. Quando eu me tornei ministro do Interior, em 2002, menos de 20% das áreas de estacionamento estava planejadas. Eu verifiquei com o ministro. Hoje, mais de 60% dos estacionamento legais estão prevoistos. Os ciganos que vêm para a França para se istalar em locais legais são bem vindos. Mas, como chefe de estado,  posso aceitar que existam 539 assentamentos ilegais em 2010, na França? Quem pode aceitar isso? Eu vi este ou aquele político dizia: "mas por que você se preocupa com isso, o problema não existe". Ele não se coloca para um político cujo domicílio não é ao lado de um acampamento. Talvez sua opinião fosse diferente se a questão fosse com ele mesmo?".

O Grande Oriente da França não tem qualquer necessidade de recordar a estigmatização de que são vítimas as pessoas desabrigadas e nômades; e constata muitas vezes a situação precária em que eles são jogados. Não há desculpa para os atos de criminalidade, delinquência ou violência de que alguns seriam autores ou responsáveis. Mas uma política determinada de localização, escolarização, e  integração responderá sempre melhor que a exclusão.

O Grande Oriente de França demonstrou já há bastante tempo que não é nem cego, nem frouxo e  que ele, naturalmente apoia as vítimas para que elas sejam defendidas em um estado de direito.

O estigma e a exclusão, a confusão e o amálgama não servem para resolver os problemas que apresentam.

Conforme a Declaração dos Direitos Humanos, apelamos para a construção de uma resposta republicana aos problemas apresentados onde a violência física é o ponto mais insuportável, e que passe por uma educação para a cidadania com seus direitos e seus deveres e escola emancipadora.
 

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

AÇÃO POSSÍVEL DE MAÇONS NOS GRANDES CENTROS


 

As lojas maçônicas dos grandes centros têm um desempenho abaixo da média. É uma constatação triste. Muitos recursos desperdiçados que poderiam ser mais bem direcionados.

Nos centros menores, as lojas empolgam a liderança comunitária e através dela conseguem retomar o seu antigo viço e cumprir parcialmente seu destino histórico. Ainda que sua condição atual seja apenas uma pálida imagem de sua influência e importância no cenário brasileiro.

Antes de prosseguir, por favor, dê uma olhada em www.assovio.wordpress.com .

Este é o blog de nossa associação virtual de vizinhos, que criei. Como funciona:

  1. Contatei os vizinhos e consegui o e-mail e telefone de cada um. (Seria bom incluir o CEP no banco de dados para permitir segmentação de ações.)
  2. Criei um grupo de discussão (no google, mas pode ser yahoogroups ou outro) através do qual divulgo tudo o que é feito em nome da Assovio, convoco o povo,
  3. Os "associados" encaminham fotos de buracos, de podas irregulares, aqueles probleminhas que nos incomodam no dia a dia. Estes problemas são descritos e publicados no blog.

    A publicação no blog é super-simples. Basta escrever um e-mail e mandar para o blog. O texto é publicado. O Assunto do E-mail se torna o título da matéria. (Precisa apenas abrir um perfil em www.wordpress.com , e mandar bala.)

  4. Levantamos os e-mails dos funcionários da Sub-prefeitura e encaminho a eles os pedidos, além de incluir um SAC no site da prefeitura. Mando sempre cópia para a seção São Paulo Reclama do Estadão (spreclama.estado@grupoestado.com.br ) e para o Prefeito (gabinetedoprefeito@PREFEITURA.SP.GOB.br )

Dessa forma, cada maçom pode se tornar um defensor dos direitos do povo, pode denunciar desmandos, cavar masmorras aos vícios e levantar templos à virtude, DE VERDADE, não só em palavras...

Se houver interesse, minha idéia é a seguinte:

  • Manter um blog central www.assovio.wordpress.com onde serão informados os blogs secundários. (Eu me encarregaria de incluir os blogs secundários neste blog central, assim que fosse informado de sua existência).
  • Cada blog novo teria sempre a estrutura www.assovio-xxxxx.wordpress.com , onde o xxxxx indicaria o nome do bairro ou cidade a que se refere o blog.
  • Podemos ter quantos sub-blogs quisermos, cada um gerenciado por um irmão que tentaria recrutar o maior número de vizinhos possível, sempre coletando um NOME (não precisa ser completo), telefone, e-mail e CEP.


 

No meu caso, a motivação inicial era criar uma "Neighborhood Watch" (http://en.wikipedia.org/wiki/Neighborhood_watch) onde os vizinhos se organizam para ficarem alertas contra possíveis problemas. Em São Paulo, há uma experiência no Morumbi que deu certo. A nossa não deu. Ou melhor, funciona parcialmente.

Nas grandes cidades, as pessoas vivem atrás de grades e muitas vezes nem conhecem os vizinhos.

Eu planejava criar um "Tambor" (o nome que é dado em minha loja ao esquema de comunicação rápida entre os irmãos, onde um irmão tem a obrigação de avisar apenas dois outros irmãos até que todos recebam a mensagem) onde um vizinho teria o número de dois ou três outros vizinhos mais próximos a quem telefonaria caso detectasse algum movimento suspeito nas imediações.


 

Se tiverem interesse mande um e-mail para:

e-mail: assovio@gmail.com

Maçonaria e a Conjuração Mineira – Algumas idéias

Inúmeras vezes, vi e ouvi textos sobre a História da Maçonaria em que o autor, por imprecisão linguística ou, até mesmo, ignorância afirma que a maçonaria surgiu em 1717 e da mesma forma, que a maçonaria brasileira teria surgido em 1822. Confundem a consolidação de lojas em uma organização central, com a própria instituição. É verdade que no Brasil foi um processo meio português, onde na falta de lojas para consolidar, escolheu-se fracionar a única loja existente em três unidades, de forma a atender ao pré-requisito de formação de um Grande Oriente.

Esse "erro" é muito comum devido à tendência da historiografia tradicional se concentrar em datas e personagens históricos, em detrimento do contexto e das forças vivas da sociedade, que são os verdadeiros protagonistas da história.

A história da maçonaria oferece uma dificuldade adicional que é o segredo. Dessa forma, o acesso aos arquivos é difícil pois, muitas vezes, arquivos foram destruídos principalmente como resultado de perseguições ou ameaças de perseguição. Como bem lembrou o Dr. Alexandre Mansur Barata em sua dissertação de doutorado "Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência", a falta de documentos pode ser suprida pela análise das consequências dos atos.

Essas "mal-traçadas linhas" são baseadas naquele excelente trabalho sobre a maçonaria brasileira no período de 1790 até 1822.

A questão aventada pelo ilustre irmão Jorge Cyrino foi em relação ao rito que seria seguido pelos conjurados. Na realidade, o rito é de somenos importância, se considerarmos que não há possibilidade de se saber se os conjurados maçons pertenciam a uma loja. O que podemos especular é sobre as influências que agiram sobre o movimento, à luz de outras informações sobre a maçonaria no século XVIII.

Mister se faz que se recue até 1717 quando da fundação da Grande Loja de Londres, esta sim, uma consolidação de quatro lojas maçônicas já existentes naquela cidade, a saber, a Loja da Taverna do Ganso e a Grelha, Loja da Taverna da Coroa, Loja da Taverna da Macieira e Loja da Taverna do Copo e as Uvas.

Esta Grande Loja arvorou-se em herdeira "direta e legítima da maçonaria operativa medieval", e sofreu a influência dos protestantes John Anderson e do Pastor Desagulliers Homem de grande erudição e de forte personalidade foi ele, sem dúvida, quem abriu as portas das lojas aos judeus, muçulmanos e hindus. Até então, os ritos exclusivamente cristãos dos maçons operativos não permitiam essas adesões. É o que explica o aspecto agnóstico das Constituições de Anderson onde apenas se exige do postulante que "professe uma religião com a qual todos os homens concordem". (Ir.´. Lucas Galdeano in http://www.freemasons-freemasonry.com/galdeano_tratado.html )

Estes maçons da Grande Loja de Londres eram os "modernos".

Nos anos seguintes, foram fundadas as Grandes Lojas da Irlanda (1725) e da Escócia (1736) que adotaram uma posição mais conservadora e que se recusaram a reconhecer a Grande Loja de Londres, por conta da modernidade desta última, que não exigia a presença do Livro da Lei e permita a adesão de pessoas de diferentes religiões.

Em 1726, a maçonaria foi transplantada para a França por meio de uma loja inglesa que funcionava na taverna AU LOUIS D'ARGEN sob jurisdição Inglesa. Em 1728 é fundada a Grande Loja de França.

Entre 1735 e 1738 surgem, praticamente ao mesmo tempo, os ritos Francês - muito parecido com o "emulation", mas com um viés jacobino e libertário - e o Escocês que vai pouco a pouco se desgarrando do rito tradicional, por força de influências de nobres católicos fugidos da Escócia e Inglaterra e que não podiam se contentar com a simplicidade do rito tradicional. Precisavam acomodar seus egos e seus títulos em uma ordem que os reconhecesse. Some-se a isso o fato de que as bulas papais tinham assinalado para os inquisidores determinando que "além de seu caráter secreto, a maçonaria era contrária à fé católica porque pressupunha a convivência entre homens de religiões diferentes. Essa 'tolerância religiosa' defendida pelos maçons era considerada pelos inquisidores como 'imoral', pois negava a religião revelada, caindo sobre aqueles que a defendiam a suspeita de heresia." (Barata, p. 170). Os maçons católicos franceses preferiram ajustar o rito para ficar mais "soft" e poder ser palatável para a nobreza.

Em 1744, surge o rito Adonihramita, minoritário, originário de um erro tipográfico que gerou uma discussão estéril e, em consequência, mais um rito desnecessário.

Em 1751, maçons ingleses conservadores fundam a Antient Grand Lodge of England que se contrapunha aos "modernos" da Grande Loja de Londres. Eram os "Antigos" (No século seguinte, as Grandes Lojas da Irlanda e da Escócia reconhecem a Grande Loja de Londres – mas, para isso esta tem que ceder em seus princípios e incluir a obrigatoriedade do Livro da Lei – e funda-se a GLUI - Grande Loja Unida da Inglaterra – que se arvora em Vaticano na Maçonaria.

De maneira geral, o panorama da maçonaria européia exibia a polaridade entre a maçonaria inglesa conservadora e a maçonaria francesa caracterizada pelo pensamento libertário que culminaria na Revolução Francesa. Além disso, diferentemente do que ocorria no "environment" inglês que era protestante, rompido com o Vaticano, a presença da Inquisição e da Santa Madre na França funcionou como a lei física da ação e reação.

Há que se considerar que o fluxo de informações nestes tempos era muito lento e a evolução e transferência de influências era difícil. Mas, os deslocamentos militares ofereciam uma agilidade incomum no trânsito de idéias, e muitos militares eram maçons, assim como comerciantes e aventureiros.

O panorama da evolução da Maçonaria tem como pano de fundo a crise do sistema colonial, o surgimento da industrialização inglesa que demandava novos mercados consumidores e a evolução do pensamento que culmina com o Iluminismo onde "baseados na razão (racionalismo), os iluministas contestavam a origem divina do poder real e defendiam a idéia de que o poder deveria emanar do povo e em seu nome ser exercido. Apesar de toda a oposição e censura dos Estados absolutistas, as idéias iluministas se difundiam e empolgavam os intelectuais, quer nas metrópoles, quer nas colônias."

Portugal se encontrava sob o jugo da Espanha no Sec. XVII. A partir de 1640, a Inglaterra, muito desinteressadamente passa a proteger Portugal, que recentemente recuperara sua independência.

Mais tarde, em 1661, os holandeses assinaram o acordo da Paz de Haia, reconhecendo o domínio português sobre o Nordeste brasileiro e a região africana de Angola. Em troca, os portugueses aceitaram a dominação holandesa em suas possessões do Oriente e pagaram uma indenização de quatro milhões de cruzados (moeda portuguesa) à Holanda.

A Inglaterra, que já se impunha como nova potência marítima, serviu de intermediária nos acordos entre flamengos e lusitanos.

Em troca do apoio a Portugal, a Inglaterra ficou com os domínios portugueses de Tânger (África) e Bombaim (Ásia), e a permissão para o trânsito de mercadores ingleses no comércio português da Índia. Por acordo, que culmina com o casamento entre a princesa Catarina (portuguesa) e o rei Carlos II (inglês), Portugal recebeu da Grã-Bretanha dois milhões de cruzados, suficientes para quitar metade da indenização prometida à Holanda. Pela outra metade, os portugueses tiveram de pagar juros em libras aos britânicos.

Com isso, a Inglaterra passou a influenciar Portugal, com quem estabeleceu uma aliança econômica e política. Através dessa aliança, torna-se o principal fornecedor de manufaturas inglesas às colônias portuguesas. Quebra-se o domínio comercial holandês e os britânicos substituem os flamengos enquanto grande potência pré-capitalista.

A partir do século XVII, após a expulsão dos holandeses, o Brasil tornou-se a mais importante colônia portuguesa. Isso porque a Coroa lusitana perdera pontos comerciais

importantes nos acordos com a Holanda e a Inglaterra, tendo que voltar- se integralmente à exploração econômica na colônia brasileira.

Assim é que em 1703, Portugal enfraquecido e dependente dos ingleses assina o Tratado de Panos e Vinhos, aumentando a penetração da Inglaterra na sociedade portuguesa via comércio, o que leva a um aumento da população de ingleses no Reino, tanto no continente e nas ilhas quanto nas colônias. E estes comerciantes são os arautos da boa nova – a maçonaria.

Assim é que em 1727 é fundada uma Loja Maçônica em Lisboa, alcunhada pela Inquisição de "Hereges Mercantes" composta de comerciantes ingleses e em 1733 funda-se outra loja "Casa Real dos Pedreiros Livres de Lusitânia, composta de católicos irlandeses. Observe-se que o lapso entre a organização da Grande Loja da Inglaterra e a fundação de lojas em Portugal é muito curto, o que poderia indicar que se tratava de maçons ingleses, de lojas organizadas antes da fundação da GL de Londres.

1738. Uma data muito importante para os maçons.

Naquele ano, Clemente XII publica a In Eminentis, encíclica em que determina a excomunhão dos católicos que pertencessem à Maçonaria. Em Portugal, a Casa Real dos Pedreiros Livres, composta por católicos irlandeses imediatamente se dissolve em obediência ao Papa.

Em 1742, é fundada uma loja de influência francesa, presidida pelo suiço Johann Coustos e que seria ferozmente perseguido pela Inquisição.

Os autos da inquisição dessa época estão cheios de incidentes envolvendo Pedreiros Livres, o que indica ter havido uma difusão das idéias maçonicas entre os portugueses.

Em 1751, a Santa Madre volta a atacar com uma segunda bula, a Providas de Benedito XIV que agrava a situação dos maçons que se recolhem para não sofrer consequências.

Nos autos da inquisição, fica evidente que a maçonaria francesa, revolucionária, liberal representava uma ameaça ao status quo. Entre as perguntas a serem feitas às testemunhas, havia:

"Se alguma pessoa afirma que a Confissão Sacramental só se deve fazer para receber o escrito, dizendo com estas palavras – para o Recibo, para se não andar com estórias e abusos da Excomunhão. Outrossim, que louve aos Pedreiros Livres com especialidade os da França, (grifo meu) afirmando que estes eram a melhor gente que havia e que eram bons homens." (IANTT, Inquisição de Lisboa, Maço 38, n. 411).

Com a ascensão do Marques de Pombal, para muitos um maçom dedicado, cujo governo propiciou grande liberdade aos maçons portugueses e também aumentou a influência da maçonaria francesa, via contratação de mercenários franceses empregados no governo português. Em 1777 cai Pombal e os reacionários portugueses retomam o poder.

Mas, retrocedamos ao início do Século XVIII quando o colonialismo e o mercantilismo desmorona e os ingleses assumem a liderança com sua novel indústria.

Portugal havia se enterrado em dívidas e quem havia financiado eram os ingleses, de olho no grande mercado representado pelas possessões portuguesas. Para adicionar mais um problema, Portugal expulsa os holandeses que produziam e comercializavam o açúcar. Os holandeses mudam-se para as Antilhas levando mudas de cana e começam a plantar cana e produzir açúcar ali. Como eles detinham o circuito de comercialização mundial da commodity, os portugueses perderam mercado e o preço desabou, comprometendo a economia portuguesa. A saída foi incrementar a busca por metais preciosos que já ocorria, mas que a partir daí tornou-se crucial. Havia que se pagar as dívidas.

Com a descoberta de ouro em Minas Gerais, o Brasil passa a ser o centro do império português e um grande polo de atração de imigrantes e aventureiros, entre eles muitos maçons.

Conforme Barata, "É bem possível que até o final do século XVIII, a Maçonaria não funcionasse na América Portuguesa, entendendo-se por tal uma organização institucionalizada e com funcionamento regular nos mesmos moldes das outras organizações maçônicas internacionais."

Durante o século XVIII, portanto, maçons europeus transitavam pelo Brasil e se estabeleciam no norte e no Rio de Janeiro e estavam ligados às lojas-mães, sem que haja evidências, a não ser na tradição oral, de terem constituído lojas locais.

As lojas-mães de alguns destes maçons tinham influência inglesa e, provavelmente, conheciam e praticavam o rito tradicional da Grande Loja de Londres que chegou aos nossos dias como Emulation ou York.

Outra parte desses maçons, todavia, foi influenciada por lojas de origem francesa, mais libertarias e revolucionárias, mas que também, provavelmente, conheciam e praticavam um rito praticamente idêntico ao rito inglês, com traços iluministas de anti-clericalismo e 'republicanismo' característicos da maçonaria francesa desde seu princípio.

Tanto em Portugal quanto no Brasil, as referências à ameaça dos Pedreiros-Livres são, na maior parte das vezes, relacionadas com a França, pois a maçonaria inglesa não representava uma ameaça ao status quo da monarquia portuguesa.

Tal receio foi alimentado pela publicação em 1797, em Londres, do famoso livro do Abade Barruel, Memoires pour servir à l'histoire du Jacobinisme, cuja tese principal era que a Revolução Francesa teria sido tramada nas lojas maçônicas. (Barata, p. 48)

Em 1799, na Bahia, procedeu-se um sumário de culpa contra o Padre Agostinho Gomes "tendo em vista que era do conhecimento geral em Lisboa que as 'principais pessoas' da cidade de Salvador 'por uma loucura incompreensível, e por não entenderem os seus interesses, se acham infestas dos abomináveis princípios franceses" (grifo meu) (Barata, p. 44)

Em 1794, Caetano José Pinto foi denunciado por supeita de pertencer à maçonaria, tendo em vista ouvir dizer que ele "conhecera Pedreiros Livres, e que o chegaram a convidar para seu sócio, o que não afirmo com toda certeza, assim como também se ele disse ter-lhe sucedido isto no Porto ou em França por onde viajou (grifo meu)". (Barata, p. 45)

Segundo Augusto de Lima Junior, in História da Inconfidência de Minas Gerais, "Tiradentes teria sido iniciado na maçonaria no Rio de Janeiro, e os maçons cariocas teriam articulado a aproximação de Thomas Jefferson, embaixador norte-americano na França e o estudante carioca da universidade de Montpellier, José Joaquim da Mata, no sentido de tentar obter o apoio dos Estados Unidos à revolta na colônia portuguesa. José Joaquim da Maia teria se apresentado como um delegado dos pedreiros-livres do Rio de Janeiro". (Augusto de LIMA JUNIOR, História da Inconfidência Mineira).

Nos Autos da Devassa da Inconfidência surgiu a "suposição da existência de uma loja maçônica formada por comerciantes da praça do Rio de Janeiro que teriam fornecido a credencial maçônica necessária para que José Joaquim da Maia, o Vendek, estudante brasileiro na Universidade de Montpellier se encontrasse comm o embaixador norte-americano na França, Thomas Jefferson, com o objetivo de conseguir o apoio dos Estados Unidos para a revolta que se articulava em Minas Gerais. E também o fato de que muitos desses comerciantes maçons tenham sustentado os inconfidentes mineiros durante o período em que estiveram presos no Rio de Janeiro à espera da sentença final."

Conforme Alexandre Barata, "A presença de maçons numa vila interior da capitania do Grão-Pará no início do século XIX (1803) sugere que a sociabilidade maçonica estava muito mais dispersa na América Portuguesa. Mas, uma outra surpresa trazia o relato de José Bernardo: a sua iniciação maççônica teria acontecido em Caiena, por ocasião da conquista daquela possessão francesa." (grifos meus)

Em outro ponto: "Seu crime era o de ser pedreiro-livre. Pelo que consta de sua confissão, teria sido iniciado na maçonaria em julho de 1791 a convite de dois franceses, negociantes como ele." (grifo meu)

"No início do século XIX, diversas lojas maçônicas começaram a funcionar, ora se filiando à Obediência Francesa, ora à portuguesa. O Rio de Janeiro, a Bahia e Pernambuco se transformaram em espaços de crescente efervescência maçônica." (grifo meu)

Segundo manifesto de José Bonifácio de Andrada e Silva, a primeira loja maçônica a ter funcionamento regular no Brasil for a Reunião, fundada em 1801 em Niterói e filiada, dois anos depois, ao Grand Orient de l'Ile de France. (grifo meu)

Concluindo e voltando à indagação inicial sobre o rito sob o qual operavam os conjurados da Inconfidência Mineira, chega-se à conclusão de que a maior probabilidade é que fosse o rito de emulação "'moderno" em sua vertente jacobina e francesa, vez que tanto a maçonaria portuguesa quanto a nascente maçonaria brasileira exibem laços importantes com a Maçonaria Francesa.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Deus não criou o universo, diz Hawking

(Reuters) - Deus não criou o universo e o "Big Bang" foi uma conseqüência inevitável das leis da física, afirma o eminente físico teórico britânico Stephen Hawking em um novo livro.

Em "The Grand Design", em co-autoria com o físico americano Leonard Mlodinow, Hawking diz que uma nova série de teorias tornou redundante um criador do universo, de acordo com o jornal The Times, que publicou extratos do livro nesta quinta-feira.

"Porque existe uma lei como a gravidade, o universo pode e se criará partir do nada. A criação espontânea é a razão pela qual existe algo ao invés de nada, por que o universo existe e por que nós existimos", escreve Hawking.

"Não é necessário invocar Deus para iluminar o azul, tocar o papel e colocar o universo em movimento."

Hawking, 68, que ganhou reconhecimento mundial com seu livro de 1988 "Uma Breve História do Tempo", um relato das origens do universo, é conhecido por seu trabalho sobre buracos negros, cosmologia e gravidade quântica.

Desde 1974, o cientista vem trabalhando para casar os dois pilares da física moderna - A Teoria Geral da Relatividade de Albert Einstein, que diz respeito à gravidade e fenômenos de larga escala, e a teoria quântica, que abrange as partículas subatômicas.

Seus últimos comentários sugerem que ele rompeu com visões anterior em que ele se manifestou sobre religião. Anteriormente, ele escreveu que as leis da física significavam que simplesmente não era necessário acreditar que Deus tivesse interferido no Big Bang.

Ele escreveu em Uma Breve História ... "Se descobrirmos uma teoria completa, seria o triunfo final da razão humana - porque, então, conheceríamos a mente de Deus".

Em seu último livro, ele disse que a descoberta em 1992 de um planeta que orbita outra estrela diferente do Sol ajudou a desconstruir a visão do pai da física, Isaac Newton, de que o universo não poderia ter surgido a partir do caos, mas que fora criado por Deus.

"Isso torna as coincidências de nossas condições planetárias - o Sol único, a combinação favorável de distância Terra-Sol e massa solar, muito menos notável e as provas muito menos convincentes de que a Terra foi cuidadosamente projetada apenas para agradar a nós, seres humanos", escreve ele.

Hawking, que só consegue falar através de um sintetizador de voz gerada por computador, tem uma distrofia neuro-muscular que tem progredido ao longo dos anos e que o deixou quase completamente paralisado.

Ele começou a sofrer da doença aos 20 anos, mas continuou até se estabelecer como uma das autoridades-líderes científicas mundiais, e também apareceu como convidado em "Star Trek" e nos desenhos animados "Futurama" e "Os Simpsons".

No ano passado, ele anunciou que estava deixando o cargo de Professor Lucasiano de Matemática da Cambridge University, um cargo que foi ocupado por Newton e que ele ocupava desde 1979.

"The Grand Design" deve ser colocado à venda na próxima semana.

(Editado por Steve Addison)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

PUBLICADO NO THE ECONOMIST – Para desafiar os pessimistas de plantão


 

A Agricultura Brasileira

O milagre do cerrado

Brasil revolucionou suas próprias fazendas. Pode fazer o mesmo para outros?

26 de agosto de 2010 | Cremaq, Piauí,


 

Em um canto remoto do estado da Bahia, no nordeste do Brasil, uma vasta fazenda nova brota da mata seca. Trinta anos atrás, eucalipto e pinus foram plantados nesta parte do cerrado (savanas do Brasil). Arbustos nativos, mais tarde, retomaram parte dele. Agora, cada campo conta a história de uma transformação. Alguns foram cortados como um monte de tocos de árvores e arbustos; em outros, carvoeiros entraram para reduzir as raízes a combustível; então, outros campos foram nivelados e preparados com calcário e adubo, e alguns já se transformaram em oceanos branco de algodão. Na próxima safra, esta fazenda em Jatobá plantará e colherá algodão, soja e milho em 24 mil hectares, 200 vezes o tamanho de uma fazenda média em Iowa. Ela transformará uma zona miserável do sertão do Brasil.

Quinhentos quilômetros ao norte, no estado do Piauí, a transformação já está completa. Três anos atrás, a fazenda Cremaq foi uma experiência fracassada de produção de caju. Seus celeiros estavam desmoronando e o mato estava retomando com vigor. Agora, a fazenda, que, como a Jatobá, é propriedade da BrasilAgro - empresa que compra e moderniza campos abandonados - utiliza transmissores de rádio para acompanhar a meteorologia; executa software SAP, emprega 300 pessoas sob as ordens de um gaúcho do sul do Brasil; tem 200 km (124 milhas) de novas estradas cruzando os campos e, na época da colheita, ressoa o trovão de caminhões que, dia e noite, carregam milho e soja até portos distantes. Tudo isso está acontecendo no Piauí, a Timbuktu do Brasil, uma área remota, um pouco anárquica, onde o posto de saúde mais próximo está a uma jornada de meio dia de distância e a maioria das pessoas vivem de pagamentos da previdência social - falta muito pouco para ser miraculoso.


 

Estas duas fazendas na fronteira da agricultura brasileira são microcosmos de uma mudança nacional com implicações globais. Em menos de 30 anos, o Brasil tornou-se de importador de alimentos em um dos celeiros mais importantes do mundo (ver gráfico 1). É o primeiro país a alcançar os tradicionais "cinco grandes exportadores" de grãos (Estados Unidos, Canadá, Austrália, Argentina e União Europeia). É também o primeiro gigante de alimentos tropical; os outros cinco grandes produtores são temperados.

O aumento da produção agrícola do Brasil foi impressionante. Entre 1996 e 2006, o valor total das lavouras do país aumentou de 23 bilhões de reais (US $ 23 bilhões) para 108 bilhões de reais, ou 365%. O Brasil aumentou suas exportações de carne em dez vezes em uma década, ultrapassando a Austrália como maior exportador do mundo. Ele tem o maior rebanho bovino do mundo depois da Índia. É também o maior exportador mundial de frango, cana de açúcar e etanol (ver gráfico 2). A partir de 1990 sua produção de soja aumentou de pouco mais de 15 milhões de toneladas para mais de 60m. O Brasil responde por cerca de um terço das exportações mundiais de soja, perdendo apenas para os Estados Unidos. Em 1994, as exportações de soja do Brasil representavam um sétimo da dos Estados Unidos, agora são seis sétimos. Além disso, o Brasil fornece um quarto do comércio mundial de soja em apenas 6% das terras agricultáveis do país.


 

Não menos surpreendentemente, o Brasil ter feito tudo isso sem muito subsídio do governo. Segundo a Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE), o apoio estatal foi responsável por 5,7% da renda agrícola total no Brasil em 2005-07. Isso se compara a 12% nos Estados Unidos, 26% para a média da OCDE e 29% na União Europeia. E o Brasil fez isso sem desmatar a Amazônia (embora isso tenha acontecido por outras razões). A grande expansão das terras agrícolas ocorreu a 1.000 km da selva.

Como o país conseguiu essa transformação estonteante? A resposta para isso é do interesse não só do Brasil, mas também do resto do mundo.



Um atraente modelo brasileiro

Entre hoje e 2050, a população mundial passará de 7 para 9 bilhões. É provável que sua renda aumente mais do que isso e a população urbana total será aproximadamente o dobro, mudando as dietas, bem como a procura global porque os moradores da cidade tendem a comer mais carne. A Organização para Alimentação e Agricultura da ONU (FAO) calcula que a produção de grãos terá um aumento de cerca de metade, enquanto que a produção de carne terá que dobrar até 2050. Isso será difícil de alcançar, porque, na última década, o crescimento da produção agrícola estagnou, e a água tornou-se uma restrição maior. Por uma das estimativas, apenas 40% do aumento da produção mundial de grãos hoje vem de aumentos de produtividade e 60% vem da ocupação de maiores parcelas de terras cultiváveis. Na década de 1960, apenas um quarto vinha de aumento da ocupação de terra e três quartos vinham de aumento de produtividade.

Então, se lhe pedissem para descrever o tipo de produtor de alimentos que mais importará nos próximos 40 anos, você provavelmente diria algo como: aquele que impulsionou muito a produção e parece capaz de continuar a fazê-lo; alguém com reserva de terra e água; alguém capaz de sustentar um grande rebanho de gado (que não tem necessariamente de ser eficiente, mas capaz de melhorar); alguém que seja produtivo sem subsídios públicos maciços; e talvez alguém com muito cerrado, desde o maior fracasso agrícola em todo o mundo nas últimas décadas foi a África tropical, e qualquer coisa que possa ajudar os africanos a produzir mais alimentos seria especialmente valioso. Em outras palavras, você descreveria o Brasil.

O Brasil tem mais reserva de terras que qualquer outro país (ver gráfico 3). A FAO coloca seu potencial total de terras aráveis em mais de 400 milhões de hectares; somente 50m estão sendo usados. Os números oficiais brasileiros colocam a terra disponível um pouco menos a 300m hectares. De qualquer maneira, é uma grande quantidade. Nos números da FAO, o Brasil tem tanta terra disponível quanto os seguintes dois países juntos (Rússia e Estados Unidos). Ele é, muitas vezes, acusado de cortar a floresta para criar suas fazendas, mas quase nenhuma dessas novas terras está na Amazônia, a maioria está no cerrado.


 

O Brasil também tem mais água. De acordo com o Relatório Mundial de Avaliação da Água da ONU de 2009, o Brasil tem mais de 8.000 bilhões de quilômetros cúbicos de água renovável anualmente, muito mais que qualquer outro país. O Brasil sozinho (população: 190m) tem tanta água renovável quanto toda a Ásia (população: 4 bilhões). E, uma vez mais, isso não é principalmente por causa da Amazônia. O Piauí é uma das áreas mais secas do país, mas mesmo assim ainda recebe um terço a mais de água que o cinturão do milho dos EUA.

É claro que ter água renovável e reserva de terra não é muito bom se eles estiverem em lugares diferentes (um problema na maior parte da África). Mas, de acordo com a BrasilAgro, o Brasil tem quase tanta terra com mais de 975 milímetros de chuva por ano, quanto toda a África, e mais de um quarto de toda a terra desse tipo no mundo.

Desde 1996, os agricultores brasileiros vêm aumentando a quantidade de terra cultivada em um terço, principalmente no cerrado . Isso é muito diferente de outros grandes agricultores, cuja quantidade de terra arável permanece estável ou (na Europa) em queda. E isso aumentou a produção em dez vezes esse montante. Mas, a disponibilidade de terras aráveis é, de fato, apenas um motivo secundário para o extraordinário crescimento da agricultura brasileira. Se você quiser o motivo principal em três palavras, elas são Embrapa, Embrapa, Embrapa.



Mais alimentos sem desmatamento

A Embrapa é a abreviação de Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. É uma empresa pública criada em 1973, em um momento incomum de clarividência dos generais que governavam o país naquela época. Então, a quadruplicação dos preços do petróleo estava tornando inviáveis os altos níveis de subsídio agrícola do Brasil. Mauro Lopes, que supervisionou o regime de subsídios, diz que pediu ao governo para dar US$ 20 à Embrapa para cada 50 dólares economizado cortando subsídios. Ele não fez isso, mas a Embrapa recebeu dinheiro suficiente para se transformar na instituição-líder de pesquisa tropical no mundo. Ela faz tudo, desde a criação de novas sementes e gado, até a criação de papel de embrulho ultra-finos comestíveis para gêneros alimentícios que muda de cor quando expira a validade do alimento, administra laboratório de nanotecnologia que cria tecidos e ataduras biodegradáveis ultra-fortes. Sua principal realização, entretanto, foi tornar verde o cerrado .

Quando a Embrapa começou, o cerrado era considerado imprópria para a agricultura. Norman Borlaug, um cientista americano de plantas, muitas vezes chamado o pai da Revolução Verde, disse ao New York Times que "ninguém pensava que aqueles solos algum dia seriam produtivos." Eles pareciam excessivamente ácidos e pobres demais em nutrientes. A Embrapa fez quatro coisas para mudar isso.

Primeiro, ela derramou quantidades industriais de calcário (calagem pulverizados ou giz) no solo para reduzir os níveis de acidez. No final da década de 90, 14 a 16 milhões de toneladas de calcário foram espalhados em campos brasileiros a cada ano, aumentando para 25 milhões de toneladas em 2003 e 2004. Isso equivale a cerca de cinco toneladas de calcário por hectare, algumas vezes mais que isso. Na fazenda Cremaq de 20.000 hectares, 5.000 enormes caminhões de 30 toneladas vomitaram seu conteúdo nos campos, nos últimos três anos. Os cientistas da Embrapa também criaram variedades de rizóbio, uma bactéria que ajuda a fixar o nitrogênio em leguminosas e que funciona especialmente bem no solo do cerrado , reduzindo a necessidade de fertilizantes.

Assim, embora seja verdade o Brasil tem muita terra disponível, ele não apenas a tem desperdiçada, esperando para ser arada. A Embrapa teve de criar a terra, em um certo sentido, ou torná-la apta para a agricultura. Hoje, o cerrado é responsável por 70% da produção agrícola do Brasil e se tornou o novo Centro-Oeste. "Nós mudamos o paradigma", diz Silvio Crestana, antigo diretor da Embrapa, com orgulho.

Em segundo lugar, a Embrapa foi até a África e trouxe de volta uma gramínea chamada braquiária . O paciente cruzamento criou uma variedade, denominada braquiarinha no Brasil, que produzia 20-25 toneladas de ração de grama por hectare, muitas vezes o que a grama do cerrado native produz e três vezes a produtividade na África. Isso significou que partes do cerrado poderiam ser transformadas em pasto, possibilitando a enorme expansão do rebanho bovino no Brasil. Trinta anos atrás, no Brasil levavam-se quatro anos para engordar um boi para abate. Agora, o tempo médio é de 18-20 meses.

E isso não é o final da história. A Embrapa iniciou recentemente experimentos com braquiária geneticamente modificada para produzir uma variedade de folhas mais larga chamada braquiarão que promete aumentos ainda maiores em forragem. Isso por si só não transformará o setor pecuário, que continua a ser bastante ineficiente. Cerca de um terço da melhoria na produção animal vem de um melhor manelo da reprodução dos animais; um terço vem do aumento da resistência à doença, e apenas um terço de melhor alimentação. Mas isso claramente ajuda.

Terceiro e mais importante, a Embrapa transformou a soja em uma lavoura tropical. A soja é originária no nordeste da Ásia (Japão, nordeste da China e península da Coreia). Ela é uma cultura de clima temperado, sensível às mudanças de temperatura e exigindo quatro estações distintas. Todos os outros grandes produtores de soja (principalmente os Estados Unidos e a Argentina) têm climas temperados. O próprio Brasil ainda cultiva soja em seus estados temperados do sul. Mas, através de cruzamentos no estilo tradicional, a Embrapa desenvolveu a maneira de também cultivá-la em um clima tropical, nas planícies do Estado de Mato Grosso e em Goiás no cerrado quente. Mais recentemente, o Brasil também vem importando sementes de soja geneticamente modificada e é hoje o segundo maior usuário mundial de transgênicos depois dos Estados Unidos. Este ano, a Embrapa conseguiu a aprovação de sua primeira semente transgênica.

A Embrapa também criou variedades de soja que são mais tolerantes do que o habitual a solos ácidos (mesmo após a vasta aplicação de calcário, o cerrado ainda é um pouco ácido). E acelerou o período de crescimento da planta, cortando entre oito e 12 semanas do ciclo de vida normal. Estas plantas de "ciclo curto" tornaram possível plantar duas safras por ano, revolucionando a operação das fazendas. Os agricultores costumavam plantar sua safra principal em Setembro e colhê-la em Maio ou Junho. Agora, eles podem colher em Fevereiro, ao invés, deixando tempo suficiente para uma segunda safra completa antes do plantio realizado em Setembro. Isto significa que a "segunda" safra (que era pequena) tornou-se tão grande quanto a primeira, representando um grande aumentos na produtividade.

Tais melhorias continuam. A fazenda Cremaq dificilmente poderia ter existido até recentemente, porque a soja não cresceria neste sertão brasileiro, em sua maior parte quente e ácido. A variedade de soja plantada hoje não existia há cinco anos. O Dr Crestana chama isso de "a transformação genética da soja".

Por último, a Embrapa foi pioneira e incentivou novas técnicas de exploração agrícola. Os agricultores brasileiros foram pioneiros em "plantio direto", onde a terra não é arada nem a colheita feita no nível do solo. Ao contrário, ela é cortada no topo da haste e os restos da planta são deixados para apodrecer em um tapete de material orgânico. A safra do ano seguinte é, então, plantada diretamente no tapete, retendo mais nutrientes no solo. Em 1990, os agricultores brasileiros utilizavam agricultura de plantio direto para 2,6% de seus grãos, hoje são mais de 50%.

O mais recente truque da Embrapa é algo chamado integração de floresta, agricultura e pecuária: os campos são utilizados alternadamente para culturas e pecuária, mas trechos de floresta também são plantadas entre os campos, onde o gado pode se alimentar. Este, ao que parece, é o melhor meio já inventado para salvar as terras de pastagens degradadas. Tendo gasto anos aumentando a produção e a área cultivada, a Embrapa está agora se voltando para formas de aumentar a intensidade de uso da terra e da rotação de culturas e animais, de modo a alimentar mais pessoas sem desmatar a floresta.

Os agricultores em todos os lugares reclamam o tempo todo e os brasileiros, escusado dizer, não são exceção. Sua maior reclamação está relacionada com transporte. Os campos de Mato Grosso estão a 2,000 km do principal porto exportador de soja em Paranaguá, que não pode receber, os navios maiores e mais modernos. Assim, o Brasil transporta uma mercadoria de valor relativamente baixo usando os meios mais caros, caminhões, que são então obrigados a esperar muito tempo porque as docas estão congestionadas.

Em parte por este motivo, o Brasil não é o lugar mais barato do mundo para cultivar soja (a Argentina é, seguida pelo Centro-Oeste americano). Mas, ele é o lugar mais barato para plantar o próximo acre. A expansão da produção na Argentina ou nos Estados Unidos leva o produtor a terras marginais mais secas onde é muito mais caro cultivar. Expandir no Brasil, ao contrário, leva o produtor a terras bastante parecidas com aquelas que ele acabou de deixar.



Grande é bonito

Como quase todos os países agrícolas de grande porte, o Brasil é dividido entre operações produtivas gigante e fazendas "hobby" ineficientes. De acordo com Mauro e Ignez Lopes da Fundação Getúlio Vargas, uma universidade do Rio de Janeiro, metade das 5 milhões de fazendas do país ganha menos de 10.000 reais por ano e produz apenas 7% da produção agrícola total; 1,6 milhões são grandes operações comerciais que produzem 76% da produção. Nem todos os agricultores familiares são um dreno na economia: grande parte da produção de aves está concentrada entre eles e eles absorvem muito do subemprego rural. Mas, as grandes fazendas são imensamente mais produtivas.

Do ponto de vista do resto do mundo, no entanto, essas falhas na agricultura brasileira, não importam muito. A grande questão para eles é: pode o milagre do cerrado ser exportado, principalmente para a África, onde as boas intenções de forasteiros tantas vezes definharam e morreram?

Há várias razões para se pensar que é possível. As terras brasileiras são como as da África: tropicais e pobres em nutrientes. A grande diferença é que o cerrado recebe uma quantidade razoável de chuvas, o que não acontece na maior parte da savana africana (com exceção da faixa do sul da África entre Angola e Moçambique).

O Brasil primeiro importou um parte de suas matérias-primas de outros países tropicais. A grama Brachiaria veio da África. O zebu que formou a base do rebanho de gado nelore do Brasil veio da Índia. Em ambos os casos, o know-how da Embrapa os melhorou dramaticamente. Poderiam eles ser levados de volta e melhorados ainda mais? A Embrapa começou a fazer isso, embora seja cedo e até agora não está claro se a retransferência de tecnologia funcionará.

Uma terceira razão para esperança é que a Embrapa tem experiência que outros, na África, simplesmente não têm. Ela tem estações de pesquisa para mandioca e sorgo, que são alimentos Africanos. Ela também tem experiência não só no cerrado mas em outras regiões áridas (o chamado sertão ), em selva e nas vastas zonas úmidas na fronteira com o Paraguai e a Bolívia. A África também precisa fazer melhor uso de terras semelhantes. "Cientificamente, não é difícil transferir a tecnologia", avalia o Dr. Crestana. E a transferência de tecnologia está acontecendo em um momento em que as economias Africanas estão começando a crescer e ajuda chinesa maciça está começando a melhorar o terrivelmente famoso sistema de transporte do continente.

Ainda assim, é necessário uma palavra de cautela. O milagre agrário do Brasil não aconteceu por meio de uma simples correção tecnológica. Nenhuma bala mágica foi responsável por isso - nem mesmo a soja tropical, que mais se aproxima disso. Em vez disso, a Embrapa foi uma "abordagem sistêmica", como chamam os cientistas: todas as intervenções funcionaram juntas. Melhorar o solo e a nova soja tropical foram ambos necessários para cultivar o cerrado; os dois juntos também tornaram possível a evolução de técnicas agrícolas que impulsionaram produtividade adicional.

Sistemas são muito mais difíceis de exportar que um simples reparo. "Nós fomos aos Estados Unidos e trouxemos de volta o pacote completo [de agricultura de vanguarda na década de 1970]", diz o Dr. Crestana. "Isso não funcionou e levamos 30 anos para criar o nosso próprio modelo. Talvez os africanos venham ao Brasil e levem de volta o nosso pacote. A África está mudando. Talvez não exija deles tanto tempo. Veremos. "Se virmos algo parecido com o que aconteceu no próprio Brasil, alimentar o mundo em 2050 não se parecerá com a luta árdua que parece ser hoje.